Escolhi de propósito um quadro de Picasso. Assim ninguém vai achar que parece com A ou B. Sem falar mal do Picasso...Bom quero falar sobre a morte.
Não é a primeira vez que falo aqui sobre morrer. E nem será a última. Nada mais natural, uma vez que nascemos, que outro destino poderíamos ter?
Começamos a morrer no dia em que nascemos. Do berço à sepultura é um átimo no tempo. Ficam nossas boas ações, ou más, e com certeza não teremos agradado a todos.
Mas hoje queria me ater a um fato cruel em nossa sociedade. A solidão daqueles que estão para morrer.
E para que não fique alguma coisa muito abstrata vou contar o milagre sem falar qual o santo.
Uma pessoa que não conheço, mas que é conhecido de gente muito próxima a mim, está morrendo.
Como a morte sempre tem uma desculpa, esta pessoa está com uma doença incurável, para a qual a medicina ainda não tem solução.
E é uma pessoa que sofre.
Não vou fazer apologia ao moribundo, nem dizer que ele era uma ótima pessoa, ou é ainda, mas vou falar da solidão.
Nestas horas, ou você tem muito dinheiro ( olha que terror), ou se torna um estorvo para a família.
Um filho não pode acompanhar no hospital porque mora em outro estado. A filha não pode porque tem emprego, a ex mulher está dando aleluias que ele se vá logo, e os que ainda cuidam reclamam do infeliz que não pode ir ao banheiro sozinho, que tem de ser alimentado na boca...
E isso me faz lembrar de um velho ditado mineiro: Um pai cuida dez filhos, e dez filhos não cuidam um pai.
Fosse o velho rico, estariam todos à sua volta, mas não é. Não vou ater-me apenas ao lado material. Existe também a angústia dos que o amam, que nada podem fazer a não esperar que a morte o livre do sofrimento, que pode estender-lhe por semanas.
Nestas horas eu francamente sou pela eutanásia, ou pelo menos pela ortonásia, e penso em que um dia serei eu, a depender de uma alma caridosa a me trocar a roupa suja, a me dar um gole de água. Se dependesse de mim, gostaria de morrer dormindo, em meio a um sonho gostoso, que se desvaneceria e eu iria para lugar algum. Também não iria querer aquele ambiente todo asseptico de um hospital, cheirando a desintante ( logo eu que tenho horror ao cheiro de cloro) e família á minha volta, esperando o médico dizer: foi-se.....para então começarem as brigas por despesas com velório e sepultamento.
Gente, gente...Paguem estas porcarias enquanto podem. Decidam se querem doar órgãos, se querem ir para hospital quando estiverem mal, se querem ser sepultados ou cremados. Deixem isso claro, e se tiverem bens, deixem claro também quem fica com o que.
Mas se forem pobres como este infeliz que tem vivido de caridade de filhos ( também nunca foi bom pai), e agora o que pode esperar.
Desejo que se vá logo. Quando não há mais remédio, remediado está. E que descanse, embora eu seja atéia de carteirinha, quem sabe estou errada? E que dê descanso à família.
Serve para pensarmos na efemeridade da vida. Em que nossas vidas são muito curtas, e que jamais queremos pensar que um dia ela acaba. Mas acaba, então por que não deixar tudo organizado? Milagres acontecem? Raramente. Este sujeito vai melhorar? Não, a doença dele não permite melhoras. O que o pobre ainda está sofrendo aqui? Nestas horas eu acho o mundo muito cruel. Morrer deveria ser evaporar, sumir, desintegrar-se, e da pessoa restar apenas o que ela deixou de bom ou de mau.
Desculpem tão triste texto, mas os filhos vão chorar uns dias, e a vida continua. Esta é a lei.


