quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

PRAZO DE VALIDADE

Recebi de uma pessoa em minha comunidade o post abaixo:


Marcia que tal vc comentar sobre o relacionamente mae-filha, quando eh a mae que nao aceita a "independencia" da filha. Vou explicar melhor: tenho minha mae aqui comigo por quase 2 meses e nunca estive tao estressada, ela nao aceita meu ritmo de vida, ( saio cedo pro trabalho e outras vezes trabalho de casa mesmo mas nao posso dar a ela toda atencao que ela quer); a maneira que crio meus filhos (ela acha que dou liberdade demais a meus filhos e nao deveria deixar minha filha fazer universidade longe de onde moramos); ela gasta demais e eu sou hiper economica, ela adora "drama" e eu detesto discussoes; ela gosta de "junk food" e nos aqui so comemos tudo natural...em vez de estarmos aproveitando essa visita dela, a familia esta toda estressada!Me sinto a "pior" filha do mundo mas nao vejo a hora de minha mae ir embora...


Situações como essa só merecem um conselho: tenha paciência.
Você não pode fazer absolutamente nada!
Não vai discutir com a mãe, seria falta de respeito e perda de tempo. Mas vou explicar os porquês desta situação.
A mãe viveu outra época. Além disso tem a própria personalidade, que deve ser forte. Ela quer atenção. Já pensou se ela não sente que está sendo preterida em função de seu trabalho?
Ela pode não estar notando que a mãe agora é você, e ela não precisa gostar ou desgostar de seus métodos, mas ainda carrega dentro de si aquela "coisa" de ser a mãe, a que sabe, a que orienta.
É difícil para uma mulher, principalmente se criou filhos, de repente ver que os próprios filhos seguem outra "cartilha", tem suas regras próprias.
Uma coisa que costumo dizer sempre a meus amigos e pacientes, e faz parte de meu vocabulário usual: mãe tem prazo de validade. Sua mãe foi mãe. Boa ou não, fez o que achava que deveria. Mas agora não tem mais validade como aquela mãe que orienta. Passa a ser a mãe amiga, a mãe que aprecia o que a filha faz.
Quando uma mulher não sabe observar que o prazo de validade como mãe extinguiu-se, sempre há o conflito de gerações. Felizes daquelas filhas cujas mães respeitam suas atitudes. Se você acha que sua filha deve estudar aqui ou acolá, ela apenas deveria concordar, afinal a responsabilidade agora é sua, não dela.
É outra época no mundo, são outros os hábitos. Mas muitas mulheres não se preparam para esta fase da vida.
Minha amiga, que até lhe sirva de exemplo, pois um dia será sua vez de estar nesta posição. É uma situação extremamente comum, que vejo ocorrer a toda hora. Mães e sogras disputando o papel que não é mais o delas. E sabe porque isso acontece? Qual a educação que é dada à menina?
Seja boazinha, estude, lave as mãos antes de comer, ache um bom marido, seja uma boa esposa, cuide bem de seus filhos.
E quanto à maturidade e velhice? Alguma coisa é ensinada? Jamais. Ninguém diz:
Quando for uma pessoa madura, dê seu lugar aos mais jovens. Observe apenas, saiba sorrir, e só ofereça conselhos se forem pedidos.
Honestamente, alguém ensina isso? É exatamente pela falta destas informações que as mães das mães mais novas se confundem totalmente. Querem continuar com seu papel, em palavras de Jung, continuam com a persona que encarnaram por quase toda a vida.
Você não pode fazer nada. Sinceridade com ela agora só a magoaria. Sei perfeitamente que deve estar dificílimo para a família toda. Talvez possa dar a ela alguma atribuição sob o pretexto de que precisa de uma ajuda em algum setor. Isto a faria ocupar-se e sentir-se útil. Ela não age assim por mal, esteja certa.
Para ela, você ainda é, e será sempre a menininha. E ela é quem sabe das coisas. Francamente, você tem coragem de mostrar a ela este texto? Eu não teria. O que posso dizer é que ela sente falta de apreciação. Talvez boas conversas sobre tempos passados, sobre tempos em que ela "era" a mãe possam levantar a auto estima dela, afinal todos estes palpites são reflexo de um desejo inconsciente de se valorizar. Pois valorize-a um pouco, isto será bom para todos.
Peça a ela que faça aquele bolo que "só" ela sabe fazer. Peça algum conselho que não seja para agora, assim não precisará seguí-lo, mas ela se sentirá feliz.
Contudo, tire disso uma preciosa lição para o seu futuro. Prepare-se para quando você estiver ocupando uma posição de mãe, e sua filha estiver onde você está hoje. Saiba definir quando suas funções de mãe cuidadora terminam.
Também sou mãe. Meus filhos estão criados, e ouço frequentemente coisas com as quais discordo. Mas converso com meu eu interior e me digo: Marcia, agora é a hora deles, dê um sorriso e diga que fazem muito bem, que é isso mesmo.
Se der tudo bem, não perdi meu tempo. Se der tudo errado, é a vez deles aprenderem mesmo. E eu fico em minha zona de conforto, tranquila.
O tempo passa rápido e logo ela irá para a casa dela. Tente aproveitar o tempo sem se estressar, use mais a expressão: Sabe que talvez você esteja certa?
Use mais também este outro coringa: É, vou pensar muito nisso, gostei da idéia.
Claro que você já se definiu, mas custa dar um prazer a quem talvez não tenha muitos outros?
Peça paciência à sua família. Tenha paciência também. E lembre-se acima de tudo que o tempo passa muito depressa, e um dia ela não estará mais entre vocês. Um beijo e boa sorte.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA


A história é tão igual que nem dá vontade de contar. Sempre a mesma coisa. Começa com um empurrão.
""O que vale um empurrão? Qualquer um mais aborrecido com o dia de trabalho chega em casa meio puto da vida e faz isso até sem notar...
Mas depois ele deu um tapa e a travessa com a carne assada para o jantar espatifou-se no chão, acabando com a louça, a comida e misturando-se com as lágrimas que insistentes caíam sobre o lixo que ela agora limpava.
Mas tudo bem... Tinha sido um dia duro no escritório, e ainda por cima um filho da mãe tinha dado uma amassadinha no carro. Entende-se.
No outro dia foi uma coisa meio sem motivo. Ela teve um pouco de medo, porque ele apertou o pescoço dela. Será que foi brincadeira? Se foi ela não gostou muito. Ficou roxo e teve que usar uma echarpe vários dias.
E com o tempo ele começou a fazer daquele comportamento o arroz com feijão do dia a dia. Por que?
O sexo era tão bom! Os passeios também! E com certeza ele não tinha outra.
Mas foi horrível quando ele apagou um cigarro em suas costas. Foi horrível quando bateu sua cabeça contra a parede até que ela desmaiou.
O que estaria acontecendo? Tentar falar era puxar mais briga, e já não havia diálogo, era só grito, qualquer coisa saía nos tapas, nos murros. ""
Este relato é sempre igual. Varia apenas as nuances, a classe social, a presença ou ausência de filhos, mas o fato em si é o mesmo. O marido é um "abuser". Desculpem a palavra sem em inglês, não temos nada tão conveniente em nossa língua.
E não fica apenas nisso. Começa a privação de comida em casa, sexo só se for para usá-la como não seria publicável, palavrões, ameaças.
Na grande maioria das vezes ela não dá parte. A vergonha a coibe. Deixar os pais saberem, jamais. E muitas vezes esta história termina no cemitério. Raras vezes tem um final não feliz, mas pelo menos razoável.
O erro não é dele. Ele é um anormal e anormais não devem estar no convívio familiar. O lugar deles é outro. A errada é ela em não admitir que o príncipe encantado é um monstro do qual deve fugir para não morrer. Anormais não pensam. E ela fica ainda buscando o ridículo de perguntar: Onde eu errei?
Francamente! Tenho vontade de esquecer qual é minha função. Tenho vontade de sacudir a moça que vejo a minha frente até que ela reaja, que acorde!
Isso quando tenho a chance de vê-la. Grande parte das vezes apenas fico sabendo que mais uma mulher morreu por espancamento, facada, tiro.
Favela? Me dá vontade de rir.... Condomínios classe A, casas maravilhosas, conjuntos habitacionais, tem de tudo.
Não vou discutir hoje o homem. Mesmo porque quero depois falar sobre a violência da mulher contra o homem, que também existe, mais nojenta até, porque é terceirizada e paga com o dinheiro dele, mas fica para outro dia.
Hoje quero falar com as mulheres. Queridas... Casamento, união estável, é alguma coisa diferente. A partir do momento em que a voz foi alterada e vocês nada fizeram, foram cúmplices.
Não existe esta coisa de marido nervosinho. Não existe perdão para um grito. Entendam isso de uma vez por todas. Marido nervoso divide os problemas com a mulher. Conta para ela o que anda ocorrendo e pede ajuda. Nem tudo na vida são flores. Maridos tem patrões que podem tirá-los do sério, mas eles não descontam em cima daquela que amam. Se descontam é que não amam, e vocês são umas idiotas se pensam que isto muda.
Muda sim, fica cada dia pior. E mais. Não tentem fazer terapia de casal. Não funciona. O abuser é um caso psicopático. Uma besta fera que melhor faria estando morto. Mas quem vai morrer é a mulher, se insistir em salvar o casamento.
Salvar o que? Quando alguém diz que tem que salvar o casamento, com certeza, não há mais nada a ser salvo.
Pensem nisso.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CEGUEIRA FUNCIONAL

Já dizem que o mais burro é aquele que não vê porque não quer. E eu ainda complemento: mais burro que este é quem se incomoda com ele.

Há vários tipos de cegueira não física. Um tipo me chama a atenção em particular. É a do que chegou em um ponto e acha que isso é suficiente. Ou seja, se coloca limites.

Será que os limites são colocados para que tateando no escuro da burrice este cego possa achar as paredes com as quais limitou sua vida?

Quem se dá limites não é cego, é burro. Claro que não pretendo ofender os animais, é apenas força de expressão.

Aquele que olha a vitrine da vida e diz: preço muito alto para mim....Puxa, este é um cego funcional! Tudo no mundo está disponível, escancaradamente disponível para nós, mas não vamos lá e pegamos porque nos colocamos fronteiras: "....só posso ir até ali...."

Quem um dia disse a vocês que há limitações? Quem os proibiu de ter alegria, felicidade?

Quem foi que disse como se comportarem, o que podem e o que não podem fazer, ser ou ter?

Pois revoguem isso. Escrevam em um papel imenso " Eu não tenho barreiras". Coloque em uma posição onde veja ao acordar. E vá todos os dias para sua vida sem cegueira, sem amarras.

Por outro lado, fico eu aqui observando os burros. Ops, digo, os cegos. Burra sou eu de me preocupar com eles.

Felicidade não é prerrogativa de ninguém, é apenas um estado de espírito. Difícil ser feliz? É só querer. Mas é um querer que exige mudança. Mudança em muitos sentidos, a começar daquilo que foi ensinado a vida toda: isto não é para você, isto é para você, faça isso, não faça aquilo.

Mas mudança sim, exige algum esforço. E então? Vale a pena?

O que você de fato quer? Amor? Dinheiro? Cultura? Acha que não pode ter?

Talvez não possa mesmo, enquanto se satisfaz com alguma coisa menor, tomando o espaço que poderia estar sendo usado por outra coisa. Você já parou para pensar que é a única pessoa responsável por sua vida?

Hoje eu me sinto uma burra. Já pedi desculpas aos animais. Me sinto uma burra por sentir o desejo do psicanalista, o que não devia sentir. O desejo do psicanalista é ver seu paciente feliz. E sua dor é ver que ele não quer ser.

Sinto vontade de rir imaginando quantos vão colocar as carapuças ao ler isso. Possivelmente todos. E a cada um caberá um pouco, sim.

Eles chegam e falam. Mostram exatamente o que querem. Mas não conseguem. Falha minha? Minha dor diz que sim. Minha lógica diz que não.

Sofredores compulsivos, narcisistas, adictos à culpa, mentirosos, enganadores de si mesmo. Tem de tudo.

E os piores: os cegos. Está lá! Pronto para ser esfregado em seus narizes pinoquianos, mas eles não querem ver. Pois que não vejam. Continuem fingindo que está tudo bem. O mundo vai bem obrigado... Eles estão bem... enganados.

Que fiquem pensando que a vida foi madrasta, que não são dignos de ter mais. Ou que para ter mais é preciso algo de que não dispoem. Pobres seres alienados do mundo.

Pobres infelizes que não podem ver porque não sabem ver, pobre de mim que ainda sofro por isso.