segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

COMO EU ME VEJO...COMO OS OUTROS ME VEEM


Este tema me foi pedido por uma das participantes da minha comunidade PSI e já de saída eu vou dizer:

A primeira parte é ótima: Como eu me vejo.

Já o resto? Como os outros me veem?

Como forma literária apenas, vou escrever este texto como uma resposta, não significando que estou apenas respondendo a ela.

Querida, se você ainda se preocupa com a forma como os outros a veem, ainda não aprendeu que no mundo só uma pessoa deveria ser importante para você, e é você mesma.

A auto estima de uma pessoa se mede pelo que ela pensa de si mesma. Aí vem também a segurança em sua própria forma de agir.

Quem ouve os outros é inseguro e tem auto estima baixa.

Não digo que um conselho na hora certa não tenha seu lugar, mas você sempre deve lembrar aquela velha lição: eu estou sempre em número um, e se me agrada, é desta forma que vai ser.

Para que saber como os outros a veem?

Bom, talvez seja apenas curiosidade. Então, eu posso esclarecer. Cada um vê segundo suas próprias idéias. Como não há duas pessoas iguais, uma atitude sua sempre será interpretada por pessoas diferentes de formas diferentes.

Inclusive por isso na psicanálise o psicanalista não diz: isso é isso. Ele diz: O que vc. pensa disso?

E o que a pessoa sente, o que ela pensa é que tem real valor. Se ela está satisfeita com sua forma de agir de ser, é tudo o que importa. Opinião de outros não conta, nem deveria mesmo.

Fisicamente você se vê de um jeito. Pois saiba que mais ninguém a vê assim. Mesmo que sejam fotos, cada um aprecia a foto segundo seus ideais de beleza, de estética. Uma foto que você acha que saiu muito bem pode ser uma foto que para outra pessoa não está tão boa assim.

Quanto à forma de agir, mais ainda. E isto tudo tem uma razão de ser, não é porque é.

A razão de ser decorre de sua experiência de vida, de suas vivências, do que uma palavra significa para você.

Uma determinada situação evoca em seus pensamentos idéias que não aparecem para outras pessoas.

Seu modo de ser, de agir, tem uma história de vida, e já não acontece igual para todos.

Claro que há coisas de senso comum. E há assuntos nos quais a minha opinião é uma, a dos outros difere.

Lembre-se de que a vida é sua, ninguém a vive por você, e a opinião que tenham a seu respeito, seja ela estética, ou sobre suas atitudes e formas de pensar não devem pesar em sua balança, nem um grama.

Temos todo o direito de colher opiniões, mas creio que segui-las já é outra história. Você segue opiniões técnicas, de um engenheiro, um advogado, um dentista. Mas nem as opiniões, se forem dadas, duvido, por um terapeuta, não devem ser seguidas.

Aliás terapeutas não podem dar opiniões. Vão conduzir você a elaborar suas próprias idéias.

Assim, minha amiga, a forma como você se vê é a que de fato interessa. Os outros, são apenas os outros. Se você se acha assim ou assado, é isso que está valendo. Se não estiver funcionando, procure o profissional adequado, mas nunca “os outros”.

Em geral temos uma boa idéia a nosso próprio respeito. A experiência da vida nos leva a isso. E devemos respeitar mais que tudo nossos sentimentos.

Pessoalmente, o que os outros pensam de mim e nada vale a mesma coisa. Os que gostam, gostam porque estou lhes dando algo. É duro, mas é verdade. Ninguém chega para um estranho e diz: Vou gostar de você. Isso não existe. Pode até simpatizar. Legal, mas eu preciso mais. Eu preciso me amar. E isso eu posso fazer por mim. O que não devo e não posso é deixar que idéias de estranhos, e todos exceto nós mesmos são estranhos, superem nosso modo de pensar, e dominem nossas atitudes.

Portanto, que diferença nos faz de que forma os outros nos veem? Importa, para nosso bem estar, nossa segurança, nossa auto estima, amor próprio, que gostemos de nós, do que somos, do que fazemos, como somos.

E o resto é só o resto.


EU INCOMODO? POR QUE?



Possivemente não ser parte da manada incomoda sim. Talvez tenha havido um tempo em que as pessoas eram pessoas, não apenas partes de um inteiro.

Hoje não. Se você não faz parte você está fora, e se está fora não é ninguém. Mas isso não é a verdade. A verdade é que aquelas mesmas pessoas a quem você incomoda por ser diferente delas, por ser quem é, e por pouco se lixar para a forma como elas são, como se vestem, o que fazem ou falam, como vivem, sentem-se incomodadas, porque em última análise você esfrega na cara delas a incompetência delas.

Olhem, não é tão raro assim o que estou falando. A princípio pode parecer que existem muitas pessoas autênticas, mas não há.

A “coisa” toda começa na infância, quando seja por não ter dinheiro, seja por ter muito, as crianças são tratadas como um coletivo. E aprendem a viver naquele coletivo.

Vamos tomar como referência as que são pobres, primeiro. Estas não tem muitos luxos, não vão, na maioria dos casos estudar muito, e vão logo procurar empregos condizentes com o que podem e sabem fazer.

Aí começa o pequeno problema. Um ou outro vai se esforçar mais e vai chegar mais adiante. Mas ninguém quer ver porque esta pessoa chegou ali na frente. Não contam os sacrifícios, as horas de sono que perdeu, as festinhas às quais deixou de ir, e os “nãos” que enfrentou até chegar lá.

Absolutamente! Só se vê o resultado final. E agora a Fulana é formada. Metida, esnobe, esqueceu as origens....Nada disso! É alguém que merece o respeito, é alguém que saiu de uma situação difícil e conseguiu melhorar de vida. Mas é tão mais fácil colocá-la à margem de suas origens... Tão mais simples transformá-la em um bicho que não veio de lugar algum...

Agora vamos pegar aquelas que nunca tiveram dificuldades. A vida sorriu, e foi fácil chegar aos pontos mais altos, e se não chegou foi porque não quis. Essa também não é respeitada. Será que queria se formar? Será que era isso que esta pessoa queria da vida?

Não se pergunta mais o que se quer, mas o que o grupo oferece. Se alguém sobe além do esperado, está errado, se aquem, está errado.

Há algo no indivíduo que se chama vontade. Essa vontade pode fazer com que se chegue onde se quer ir. Ou se pare onde se quer parar.

Você não nasce destinado a um futuro previamente resolvido. Sua vida pode mudar a cada dia.
E aí, pelo fato de você ter o direito de resolver sua vida, de ser como quer, você incomoda. Você pode resolver o país onde quer morar, a religião que quer ter, se quer casar ou não, se quer ou não ter filhos. Tudo é sua escolha.

Mas a manada quer que você siga um padrão. Vista determinadas roupas, fale seus dialetos. E você é uma pessoa autêntica. Homem ou mulher, você é autêntica como pessoa. Lógico que isso incomoda.

Agora a questão: E que lhe importa se você está incomodando? A partir do momento em que seu ego está satisfeito, porque deveria se submeter a egos alheios?

Outro motivo para incomodar: Ter opinião.
Não ser uma Maria vai com as outras, ou um Zé qualquer.

Parece que é na questão da opinião que as coisas “pegam” mais.

Se o meu self está feliz, eu estou feliz. O self é nossa totalidade. A lingua inglesa se refere a primeira pessoa como myself, não como “eu”, mas como algo que define a totalidade do “eu”.

O ego é parte do self. E quando estamos bem não deveríamos nos incomodar se A ou B se “aborrecem” porque você incomoda. Olha, vai incomodar sempre.

Infelizmente nossa sociedade é tão falsa, que não suporta ver ninguém feliz. E incomodamos mais, quanto mais aparecemos. Quer não incomodar? Seja transparente. Que seu nome nunca apareça, que você não cresça nunca, que seja um João Ninguém...Aí não incomoda.

Até ser bonita incomoda. Ter um bom namorado incomoda. Para os homens, ter um bom físico incomoda os outros. Arrumar namoradas fácil incomoda também.

Só não incomoda quem é nada.

Porisso eu não me importo se estiver incomodando alguém. Sabe o que significa? Que eu tenho algum valor.

Bobo é quem vai correndo procurar um amigo e dizer: Fulano, não sei porque a turma que sempre foi tão unida agora até me ignora. Bobo! Deu o que eles queriam. Toma vergonha e conte isso a um terapeuta. O que ele vai te dizer é exatamente o que estou falando aqui. Só que o terapeuta, terminada a sessão nem sabe mais o que falou com vc. e só vai tornar a se lembrar na próxima sessão, e o cara que você disse besteira lá no boteco já foi yac yac yac prá todo mundo, e ficam todos felizes.

Afinal você não é um deles...Você cresceu...

Lógico que os idiotas são eles. Você não os menospreza por ter se esforçado e subido na vida. Até queria tê-los como amigos. São eles que não toleram ver o sucesso de alguém.

O sucesso dos outros dói, e como...

Chama-se inveja. Despeito. Estava ao alcance de todos, tanto é que você conseguiu.

No extremo oposto, todos os seus amigos formaram-se. Trabalham, e você resolveu ter uma vida mais solta, leve, e não quis estudar. Foi escolha sua? Foi.
Está feliz? Sua felicidade, pode ter certeza que machuca muita gente que hoje tem responsabilidades sérias.

Vamos resumir. Se você é feliz, ou pelo menos parece feliz, você incomoda. Você pode nem ser feliz. Cada um é que sabe de sua vida. Mas se você parece estar feliz, esteja certo de que está incomodando.

Quer ver outra coisa que incomoda e muito? Autenticidade. Ser quem é, sem medo da opinião pública. Vestir-se como gosta, esteja ou não na moda. Ter seu modo de ser. Como autenticidade incomoda!

Então, juntemos: Sucesso, opinião, autenticidade. Receita perfeita para que você incomode.

Bom, agora apenas uma coisinha: isso de fato o incomoda? Então faça terapia, porque você não está é feliz. Deixou algumas pontas soltas ao longo do processo. Ou fez escolhas erradas, por ter pensado que eram as certas, ou não se adaptou à vida que escolheu, pois se estivesse feliz NADA o incomodaria.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Debate sobre texto

Anônimo disse...
Gostei muito da sua análise, Marcia. Bem franca. Pessimista também, mas se essa é a franqueza, q assim seja. Minha primeira impressao foi exatamente a sua - uma estrutura psicótica. Não ama, quer alguém para completar o seu ego, uma (outra) mãe talvez - o q se encaixa no perfil da moça, com seu "complexo de proteção", que talvez esteja se emprestando como a mãe dele. Um vez que o psicótico está fixado na relação simbiótica com a mãe, de completude paradisíaca... isso bate. Não tem a capacidade de enxergar o outro, de amar o outro pelo que ele É, mas pelo que ele OFERECE ao se emprestar como esse objeto de completude (para lacan poderia ser o falo imaginário). Esse rapaz certa vez falou que todos são "substituíveis". Que ele não sofrerá se perder a namorada, pois colocará outra no seu lugar. Como vc disse, a racionalização excessiva sugere certa anormalidade na forma de se relacionar, tendo em vista que o neurótico responde aos estímulos, sentindo tristezas, alegrias... o rapaz tem um embotamento afetivo. Mais um ponto caracterítico da estrutura psicótica. O excesso de sinceridade tb sugere narcisismo.Apesar das evidências, confesso que ainda me divido entre o diagnóstico do neurótico obsessivo. As outras características, comportamentos repetitivos, controlador, medo do novo, rotina estática, o "não se apaixonar" - tb podem apontar para uma neurose obsessiva. Esse embotamento afetivo não poderia ser uma forma de defesa, em vez de uma ausência do gostar do outro verdadeiramente, como vc afirmou q acha do rapaz no texto? Vc não consideraria essa possibilidade? No filme "melhor impossível", um homem que sofre de neurose obsessiva começa a melhorar, quando se permite sair do seguro e se apaixonar por uma garota. Mas ele resiste a isso desde o princípio. Que vc acha? Ou neurótico obsessivo seria mais vulnerável aos estímulos e "sente" e "expressa" mais? Outra caracterítica desse rapaz é que o mesmo tem uma forma peculiar de "demosntrar carinho", como ele mesmo diz. Ele chama a mãe de um apelido engraçado e faz brincadeiras chatas com a irmã, a pessoa com quem ele transmite mais afeto, até abraçando, é o irmão que é deficiente mental. Penso que talvez seja pelo fato de o irmão não causar nele a ansiedade da recíproca, ou cobranças, o irmão se dá e pronto. Esse rapaz tem pais superprotetores e ao mesmo tempo muito exigentes. Apesar de estar formado há certo tempo, faz uma especialização mas nunca trabalhou, é dependente. Enfim, td Isso seria narcisismo, não poderia se constituir medo do novo?Aguardo resposta...Sim, quanto a moça acho q vc está certa. Há esse "complexo de proteção". Essa moça perdeu o pai há mtos anos e a mãe é uma perversa. Teve pouco aparato materno. Talvez seja um mecanismo de compensação. É uma neurótica clássica, penso ainda numa neurose histérica, não entendi muito bem qdo vc colocou q a histeria estava ultrapassada. Acredito que ela tomou novas formas. Sindromes do pânico, fibromialgia, somatizações, nefim, podem apontar para uma histeria. Mas no caso da moça seria uma estrutura histérica, apenas. ass: amiga da comunidade
23 de Dezembro de 2008 13:51

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Namoro, Paixão, Amor















Numa comunidade de psicanálise que dirijo, uma participante expôs o seguinte, perguntando, também:

Para namorar, é necessário paixão?
O que vocês acham?Vale a pena namorar alguém que afirma nao estar apaixonado por vc, mas gostar muito de vc?E neste caso específico: o cara tem 25 anos, é formado, vive bem, mas é extremamente racional, e diz q so se apaixonou 1 vez por uma garota do colégio (uma relação platônica), só teve 1 relacionamento serio q durou 2 semanas... vale a pena a garota, da mesma idade, mas mais emocional e que já teve relaçoes duradouras anteriormente namorar com ele, mesmo ele afirmando nao ser apaixonado por ela, mas admirá-la como pessoa e gostar bastante dela? Se alguém souber responder à luz da psicanálise melhor ainda. Até gostaria de acrescentar, minha opinião é que o rapaz é um neurótico obsessivopor outros comportamentos nao mencionados na pergunta, como comportamentos repetitivos (vai sempre aos mesmos locais e faz as coisas do mesmo jeito), controlador, tem que ter o controle das situações, dificuldade de ação e decisão que acredito que ocorre por medo do sofrimento. Tem dificuldade de agir e decidir por causa desse medo. Utiliza de mecanismos de defesa como a racionalização (tem sempre uma explicação para tudo), negação (foge do amor, tem muito medo de se declarar ao outro. Foge da manifestação do afeto) e isolamento (sai pouco, qdo sai prefere locais com pouca gente ou pessoas conhecidas).Quanto a moça... penso numa histeria, talvez.


Bem, esta foi a questão exposta pela moça.

Que este rapaz mereceria uma análise, não há como negar. Mas isso não está em cogitação, portanto vamos tentar responder a pergunta da melhor forma possível.

Aqui temos dois assuntos que poderiam merecer textos separados, mas vou tentar responder em conjunto.

Primeiro, vamos tentar entender este rapaz. É um rapaz inteligente, tanto que aos 25 anos já é formado, vive bem ( entendi que tem boa situação financeira), mas apresenta uma série de problemas.

Primeiro, ser extremamente racional. Seres humanos dentro de uma faixa “normótica” não são extremamente racionais. Reagem a estímulos, têm raiva, têm momentos alegres, tristes.

O rapaz citado não ama, foge do amor, e atentem para um detalhe: teve um amor platônico, no colégio e consegue até definir quantos dias durou. Eu não saberia precisar quantos dias durou um sentimento que tive por alguém, ou quantas semanas. Sentimentos começam, chegam a um pico e vão se diluindo com o tempo. Não tem data de começar e acabar.

A moça da comunidade diz que ele tem comportamentos repetitivos, o que por si poderia caracterizar um compulsivo, já que neuróticos todos somos, mas ela se refere a ir sempre aos mesmos lugares. Logo, ele deve ir onde se sente seguro. Mas seguro de que?

É controlador e tem que ter o controle das situações. Ora, isso parece muito com alguém de quem já falei aqui, mas vamos adiante.

Este aspecto controlador aparece quando o indivíduo tem medo de uma situação nova, para a qual ele ainda não tem uma resposta em seu repertório estudado. Vê-se obviamente que ele não é espontâneo.

Ela acha que ele tem medo de tomar ações e decisões por medo de sofrimento. Eu aprofundo mais no que já pensava antes. Ninguém deixa de agir ou tomar decisões pensando que elas tragam sofrimento, mas deixam de agir e tomar decisões quando elas não conseguem ser naturais, e ele ainda não conseguiu racionalizar. Para ele o que não é racional traz medo, e eu acredito que seja de fato um medo muito grande.

Os mecanismos de defesa aos quais ela se refere:

Utiliza de mecanismos de defesa como a racionalização (tem sempre uma explicação para tudo), negação (foge do amor, tem muito medo de se declarar ao outro. Foge da manifestação do afeto) e isolamento (sai pouco, qdo sai prefere locais com pouca gente ou pessoas conhecidas).

Ora, ora, amiga, o rapaz é o típico narcisista. Lógico que vai negar o amor, porque amor é tudo menos racional, e ele não tem investimento da libido nesta área. Ele sequer entende o que é amar. Não é que tenha medo de se declarar ao outro. Ele não sente nada pelo outro. O outro para ele é a parte do self que falta nele, e de que ele depende para se completar.

Ele pode gostar muito da moça citada. Narcisistas gostam, mas não exatamente das pessoas, e sim do que elas representam no self deles, os completando.

Ele jamais dará nada de si, porque não tem nada a dar.

Bem, sua avaliação da moça, de histeria, é meio ultrapassada. Hoje em dia nem pensamos mais em histeria, vamos deixar Freud lá no tempo dele, com as histerias. Essa moça pode estar encantada com um cara diferente, pode estar motivada a fazê-lo mudar, estando com ela, mas fosse eu a analista dela pediria que ela ficasse a anos luz dele, se tivesse um pingo de juízo.

Ele está representando para ela um desafio. Mas vai ser uma tragédia grega.

Diz a participante do grupo que ele não tem paixão, mas admira a moça. Claro! E pobre dela se continuar com ele. Ela parece uma pessoa normal, que é justamente o tipo que os narcisistas vampirizam.

Bem, resumindo, para fechar o caso dele. É um psicótico, narcisista, precisa da moça, e para provar que é narcisista e não um salafrário fanfarrão, ele não esconde nada, o que um neurótico normal faria. Ele abre o jogo, porque para ele isso é totalmente perfeito. Narcisismo no mais alto grau.

Mas vamos que ele não o fosse, e apenas não sentisse paixão. Então o relacionamento seria um relacionamento racional por um lado e emocional por outro. Que dupla!

Para haver um casamento ou relacionamento de um par assim, só se ela tivesse um tremendo complexo de proteção, e o tratasse como a uma criança, pois o elemento básico do relacionamento a dois, o desejo seria suprimido. E sem desejo, como pode haver uma relação?

Pode haver uma relação de amizade, e anteriormente eu disse que existem casamentos por amizade, existem casamentos onde o amor é tão grande que supera a fase física e se converte numa amizade.

Mas começar do zero já assim?

Já tive um caso em que ele teve um acidente e ficou impotente e paraplégico e ela casou assim mesmo. Durou quatro anos, e assim mesmo porque ela era religiosa demais para dar umas escapadas. Ao final dos quatro anos, ele pediu a separação. Foi muito honesto.

Portanto, amiga da comunidade, olhe direito este caso, porque não se trata de rapaz racional demais, ou que tem altas defesas do ego. Você está lidando com um caso no qual ele é um narcisista, e ela tem complexo de protetora. Ela pode inclusive estar usando o sentimento natural de mãe, ainda que não tenha filhos, tentando entender este rapaz.

Mas amor não é, de nenhum dos dois lados, e quanto mais cedo a relação terminar, menos sofrimento representará para ambos.

Não sei se fui clara, e se isto vai ajudá-la no caso. Se precisar e quiser dar mais detalhes, retorne.

O narcisista sempre procura alguém que o complete. E se este alguém se prestar a isso vai gerar uma relação que até pode durar muito, se a moça em questão entrar no jogo psicótico do rapaz. Pode até, de repente, ela ter um parafuso de menos, falando em palavras chulas, e querer amar um coitadinho. Então análise para ela também, porque ele, coitado, só vê o mundo ao redor do seu próprio umbigo.


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

SOGRAS X NORAS


Fico pasma com este fenômeno “cósmico” da eterna desavença entre sogras e noras.

Dizem que toda a vez que duas mulherem disputam um homem dá briga. E no caso, existe sempre a disputa. Uma achando que vai perder o filhinho, e a outra que não vai ter todo o amor do marido.

Às vezes a briga é apenas unilateral. A nora até quer ser amiga, e a sogra não quer saber. Ou a sogra quer ter a moça como filha e ela quer é distância. E o pomo da discórdia é o homem que deve se sentir totalmente sem ação dentro de uma situação destas.

Vamos analisar a situação. O rapaz deve gostar da mãe, e não querer atrito com ela. Deve gostar da esposa e também não querer brigar com ela. Mas se as duas brigam entre si, como ele pode tomar partido de um dos lados?

Apesar de todas as piadas sobre sogras e genros, a relação entre sogras e genros é muito mais fácil, pois não há a disputa por alguém. Em geral neste caso a sogra, mãe da moça, está do lado dela e se unem para ferrar o cara, que muitas vezes merece mesmo. Outras vezes não.

Mas no caso de sogras e noras há um elemento masculino desejado pelas duas. A sogra ainda considera o rapaz o filhinho dela, que ela não quer perder para ninguém, e se esquece que ele já ultrapassou as fases oral, anal, genital infantil, já resolveu o Édipo dele, e é ela que narcisicamente quer mantê-lo preso à barra de sua saia.
Por outro lado, a nora, geralmente uma moça nova, ainda não mãe, ou mãe de primeira viagem, sem a experiência das fases da formação do ego, sente que o amor que ele dá a mãe é competitivo ao que dá a ela.

E assim se forma um quadro complicado.

Da mesma forma que existem os tão ridículos cursos de noivos, deveria haver um curso sério de sogras.

Uma sogra, exatamente por ter experiência e vivência, deveria adotar atitudes, e aqui eu falo muito em cima de minhas próprias experiências, que podem minimizar, senão acabar com os problemas e fazê-la, com o tempo, ganhar uma filha e aumentar o respeito que o filho lhe dá.

Primeiro de tudo: Não existe competição. Ela será sempre a mãe. A moça é a esposa, e uma mãe quer ver seu filho feliz. Se não quiser, o caso já é patológico. Mas há mães que implicam de fato. Colocam todo tipo de defeito na nora, achaam que o filhinho merecia algo melhor, quando na verdade o que acontece é uma extrema possessividade da parte dela.

Em segundo lugar: O casal novo quer privacidade. Vamos respeitar isso. Visitas inesperadas na casa do casal são absolutamente contraproducentes. Ou vocês já esqueceram o que acontecia quando eram recém casadas? Não há hora para uma sessão de agarramento de sexo! E uma campanhinha tocando é o fim da picada. Então recomendo fortemente uma cerimônia em relação a visitas. Vá quando for convidada, chegue na hora, e não fique demais.

Terceiro: Sem palpites. Deixe que eles errem e acertem sozinhos. Conselho nunca se dá. Se a opinião for pedida, cautela...é melhor sair pela tangente e dizer: O que vocês acham? Pelo menos saberá de antemão a opinião de cada um. Mas de todo jeito, não emitam suas idéias. Além do mais, sogras, lembrem-se de que seus filhos agora são homens feitos, não são rapazinhos, logo serão pais e vocês tem que aceitar isso. É hora de achar outra coisa a fazer e deixar o casal em paz.

Quarto: Não se intrometa. Se quiserem que o filho se chame Zebedeu, no futuro ele poderá ir ao juiz trocar o nome, mas se o avô dela era Zebedeu e ela quer homenagear, e seu filho está de acordo, fique quieta. Jamais fale de dinheiro, dos gastos com a casa, dos gastos dela ( isso principalmente), dos programas que fazem. Você não tem nada, absolutamente nada a ver com isso. Se não puder entender, terapia!

Quinto : Não tente ajudar se não for chamada. E restrinja-se exatamente ao que for pedido. Não leve para uma festinha aquela sua maravilhosa torta que vai ser o “must” da festa, porque apagará o brilho da tentativa dela de mostrar que é capaz de cozinhar. Não vá se não foi chamada. Muitas vezes a festinha é só para a turma da idade deles!

Sexto: Nunca critique. Nada. Nem as roupas dela, nem a arrumação da casa, nem a limpeza, nem a criação dos filhos. Nada. Lembre-se que eles não são seus. Seu filho pode, você não. Ao contrário, elogie sempre que puder, até se não puder.Seja educada, presenteie, nunca compare duas noras, e se esta for a segunda esposa de seu filho, nem se refira à primeira.

Vá por este caminho e terá uma aliada. Logo ela estará adorando você, e você terá feito muito ou nada para conseguir isso.

Isso é falsidade? Não. Isto é bom senso. Deixe que eles errem e acertem sozinhos. Seja gentil, amorosa, e o mais possível, ausente.

Agora vou me dirigir às noras. Você está enfrentando problemas. Esperado. Como agir?

Lembre-se que:

Primeiro : Ele é o filho dela e não vai deixar de amá-la porque casou-se com você, mas entenda que o amor é diferente. Estabeleça limites. Esta é a parte mais difícil, pois você precisará contar com a ajuda do seu marido. Não dê um show na frente dela, pois se ela tiver um parafusinho que seja de menos, você acaba de lhe dar o que ela queria.

Segundo: Aceite mesmo que não seja de coração se ela fizer sugestões, porque serão sinceras. Finja que as aceita, tenha sempre um sorrisinho prontinho, aceite os presentes ( às vezes cada coisa!) e agradeça. Se ela der uma jarra horrorosa, guarde-a e depois de muito tempo, se ela perguntar você pode dizer que ela foi quebrada, “ai que pena”....

Terceiro: Lembre-se que ela tem muito mais experiência que você, e se der palpites, será apenas no sentido de que evitem sofrimentos desnecessários ( dentro da visão dela). Eu já acho necessários, porque só sofrendo se aprende. Mas há sogras que dão palpites para serem exibidas, para mostrar que você jamais chegará ao nível dela. Deixe seu pensamento flutuar nesta hora, não ouça, treine isso antes.

Quarto: Ela amará seus filhos muito mais do que você pensa. Não a prive deste amor. Mas saiba impor seus limites.Esta questão de limites é incrível. Mas a mãe será você. E crie seus filhos para que no futuro não aja igual a sua sogra está agindo agora.

Bem, eu poderia dar um curso completo, mas creio que bom senso é o que mais importa.

Para as duas: Evitem confrontos, brigas, isso só desgasta o casamento. Deixem que o tempo traga para as duas a intimidade necessária e mantenham-se mais cerimoniosas no início. Não faz mal a ninguém e estabelece limites.

Há situações sérias, não vamos negar. Há sogras narcisistas, assim como há noras narcisistas. Há sogras dominadoras, e há noras dondocas.

Nunca falem mal da outra com o rapaz. A nora não deve falar da sogra, e vice versa. Num momento de opinar um sorriso discreto substitui uma opinião cáustica.

Se virem algo errado, calem-se. O silêncio é de ouro. Ninguém vai culpar ninguém por não ter dito o que pensam. Mas palavras ditas sem precisão não podem ser tomadas de volta.

E se forem por aí acabarão por serem amigas, mais que sogra e nora, mas como mãe e filha. E o marido ficará mais feliz. Pode também nunca acontecer isso, mas a vivência será tolerável.

Dei meus conselhos. Siga quem tiver juizo. Escapei um pouco da psicanálise, por estar me dirigindo a qualquer pessoa, não sei quem precisaria de uma boa terapia aqui, e fiquei no senso comum. Mas falei com o coração e com a voz da experiência.




terça-feira, 2 de dezembro de 2008

COMPLEXO DE ÉDIPO 2


O bebezinho acha que a mãe é só dele. Sente-se uma extensão do corpo da mãe, e acha que o seio da mãe está à sua disposição todo o tempo. Crianças que são criadas sem a mãe afeiçoam-se a quem as cuida e transfere o seio para a mamadeira, mas querem a pessoa que as cuida como sua propriedade.

Independente da fase oral e da fase anal, as crianças acham o pai um intruso, pois notam que ele tem algum poder sobre a mãe e esta não é apenas deles. Em hospitais e creches as crianças acham um substituto para representar o pai.

Como o pai as impede de ter a mãe apenas para elas, desenvovem um sentimento não consciente e confuso de amor e ódio por aquela figura e por analogia com a tragédia grega Édipo Rei, elas gostariam de vê-lo sumir, assim a mãe seria apenas deles. Algumas vezes irmãos mais velhos também são odiados por “ocuparem” a mãe.

A retirada do seio é importante, assim que a criança possa comer outras coisas, para que ela não aumente essa fixação na fase oral e não desenvolva mais ainda o complexo.

Se a criança desenvolve este complexo, ela terá sérios problemas na idade adulta.

O curioso é que isto é predominante nos meninos, mas as meninas podem se apaixonar pelos pais, contudo na fase anal-genital e usualmente dá-se a isso o nome de complexo de Electra. A menina acha que o papai é só ela, e que vai casar-se com ele, e a mãe é uma competidora.

Ambos os casos merecem atenção por poderem, na idade adulta criarem problemas comportamentais, alguns sérios.

No caso do Édipo, o filhinho da mamãe, incapaz de se desvincular da mãe e cuidar de sua própria família, glutão, e sempre querendo receber atenção, sem saber muito dar atenção, podendo transferir isso para uma esposa.

No caso de Electra, é a filhinha do papai, controladora, que acha que sempre o mundo lhe deve alguma coisa, querendo achar em cada homem um pai, alguém que a sustente. Não gostam de perder ( porque em geral coincidiu com a fase anal) e são ambiciosas.

Como os pacientes já nos chegam adultos, temos que voltar lá na infância e tentar ver o que aconteceu. Quando é uma criança ou adolescente o relato dos pais é interessante, às vezes até a discordância deles durante a consulta diz muito. Mas quando são adultos, não vamos chamar os pais, mesmo porque às vezes os pais até são falecidos. Assim, vamos através da fala e da escuta achar os componentes perdidos no tempo e enterrados fundo no inconsciente. Mas não é difícil, porque estes pacientes tem muitos fatores sintomáticos. O difícil é curá-los.

São os pacientes que mais tempo ficam em análise, entre todos. Quando se pensa que se avançou um pouco eles recaem, e se não houver paciência de ambas as partes, psicanalista e analisado, muitas análises resultam em um tremendo fracasso.

E estas pessoas sofrem muito, considerando em conjunto, tanto os Édipos como as Electras temos os roedores de unha, os que tem prisão de ventre crônica, os honestos doentios , os mentirosos, os gastadores compulsivos, os comedores compulsivos, os sexólatras, os manipuladores, entre outras preciosidades. Morrem de medo de perder, são possessivos, e alguns jamais amadurecem.


A análise deles é longa, deve ser paciente, e eles devem estar dispostos a enfrentá-la, ou ficarão infantís a vida toda e com vários dos problemas citados acima.

Mas a notícia boa é que tem jeito. Conseguem se curar. No fundo são pessoas boas, e ninguém é culpado de nada que ocorre na infância. Os pais é que deviam ficar mais atentos.



COMPLEXO DE ÉDIPO 1

Com meus pacientes já conversei sobre o desenvolvimento do ego. Aqui, algumas vezes, rapidamente.
Vamos retormar este assunto.
Quando o bebê está na fase embrionária, ao se formar sistema nervoso, sensações externas e da mãe passam ao bebê, que obviamente não as entende, mas registra.

Este bebê, ao crescer, tornando-se um feto e posteriormente uma criança viável, nasce com apenas um componente do ego.

É o que chamamos de id. O id é a porção primitiva do ego ainda não formado, e que só se responsabiliza por instintos. Fome, calor, frio, sensação de dor, mal estar por estar sujo.

Freud dizia que o bebê é um polimorfo ( conjunto de formas) perverso. Usou a palavra perverso não no sentido de culpa, de ruindade, mas de incapacidade de discernimento.

Deste id começa a se formar o ego.

O ego no início é bastante incipiente, e é gerado pelas experiências neuróticas. Aqui a palavra neurótico não tem o sentido comum, neurótico vem da mesma raiz de neurológico, e como aprendemos por experiências que nos machucam, que nos causam dor, prazer, as chamamos de experiências neuróticas.

Uma vez um professor meu, bem ao início de meus estudos, riu muito quando eu disse que não era neurótica. Ele disse: Acho bom que seja, pois se não for neurótica será psicótica e aí o bicho pega.

Logo somos, quando normóticos ( termo que os psicanalistas inventaram, mas não existe), somos seres neuróticos.

Mas o bebê vai então aprendendo por suas experiências neuróticas. E assim ele descobre o prazer de mamar, de chupar o dedo, a chupeta, e está na fase oral.

Posteriormente este bebê descobre que não precisa evacuar sempre, pode segurar as fezes enquanto quiser, e sente prazer nisso, afinal ele pode controlar seu corpo. Nada dá mais satisfação que saber-se dono de si mesmo, até para os pequeninos. Esta é a fase anal.

E finalmente descobre seus próprios genitais e brinca com eles. É a fase genital.

Todas estas fases são normais no desenvolvimento de uma criança e tem aproximadamente a mesma época para ocorrerem na maioria das crianças.
Pais que retardam a retirada da amamentação ( lógico que pelo bebê ele mamaria muito mais tempo) estão fixando a criança na fase oral, e com isso criando pessoas que eternamente estarão querendo uma satisfação que venha pela boca. Comida, cigarro, refrigerantes, sorvetes. A maioria dos gordos come de gula apenas, e tem fixação na fase oral.

Um susto, um xingo, qualquer coisa que ocorra na fase anal gera a fixação nesta, e é uma das piores, pois a pessoa no futuro não quer soltar nada. Além de terem problemas de prisão de ventre, detestam perder, e mesmo que seja algo que lhes faça mal, é melhor manter do que deixar ir embora. Nesta categoria enquadramos pessoas que seguram casamentos falidos, mas não liberam o outro. Ou não dão liberdade aos filhos. Querem o controle.

Na fase genital, a criança se dá conta de que a mãe não é só dela, ela tem que competir com o pai. Ou que o pai não é só dela, e aí a mãe é a concorrente. Esta fase é complicada, porque esta pessoa vai ter dificuldades de relacionamentos no futuro, se não se tratar. Mas como dizia Lacan, o pai tem que fazer o “corte”, ou seja, mostrar claramente à criança que ela é um ser independente e que não é dona nem do pai e nem da mãe.

Estas situações em conjunto criam uma série de frustrações na criança, onde começa então a criação do superego.

Enquanto o id fica com os instintos, o ego vai se formando definindo a maior parte do ser, e o superego toma conta da parte das proibições, e das obrigações.

Todo este conjunto chama-se Self, é o indivíduo completo.

Geralmente o objetivo em se conseguir um individuo sem problemas é ter um ego bem “formatado”, sem exageros do id, nem do superego.

Um exemplo de um id dominante no Self é o tarado, e o superego dominante é o matador de aluguel, que não quer saber se é certo ou errado, se receber a ordem.

Há N variações, que falaremos eventualmente, há psicopatologias, geradas ou adquiridas, há problemas que só são tratados na área da psiquiatria, por dependerem de fármacos. A Psicanálise é o tratamento pela fala e escuta. O objetivo é eliminar os traumas, os quais se tornam complexos e podem gerar doenças psicossomáticas. Atualmente se crê que o número destas doenças seja muito maior que Freud ousava crer.

Durante um tratamento o ego resiste em soltar os problemas, este fenômeno chama-se resistência. Muitas vezes o psicanalista vibra ao descobrir que venceu uma resistência, e encontra outra mais abaixo.

As partes do nosso sistema chamam-se: 1) consciente, que é aquilo que sabemos, temos percepção completa, 2) subconsciente, logo abaixo do consciente, e que nos faz lembrar uma música esquecida, um número de telefone, e finalmente 3) inconsciente, o objeto da pesquisa da psicanálise, território oculto e fechado de nossa mente, onde o acesso era feito nos primórdios da psicanálise por hipnose. Hoje é feito por análise de sonhos, estudo dos atos falhos e por conversas, onde o psicanalista acha sentidos onde o paciente sequer pensava ter alguma importância.





segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

OBSERVAÇÃO- Nota Legal

Quero lembrar que não obstante o que digo aqui, há hoje o Estatuto da Criança e do Adolescente, de modo que bater em filhos pode, ainda que seja uns tapas, ser mal interpretado, e caso denunciado dá cadeia e até perda da guarda dos filhos.
Aproveitando, lembro também que pelo Estatuto do Idoso, idosos submetidos a mal tratos podem se queixar em delegacia especializada.
O mesmo vale para a mulher, sendo bem conhecida a Lei Maria da Penha.

QUESTÃO DE LIMITES


Um problema sério que nos dias atuais vem se intensificando é a questão de limites das crianças e dos jovens.

Vejo isso com muito pesar, e penso muito em um escritor e sociólogo, Lasch, que advertiu que estávamos criando uma sociedade sem senso de limites.

A minha geração tinha hora de ir para a cama, ganhava presente no aniversário e no natal, e não exigia tanto dos pais.

Hoje, é com tristeza que vejo meninas de dois anos usando moda feita para elas, imitando a moda de adultos. Crianças pirraçando para não dormirem cedo. Escolhendo comida.

E digo sem medo de errar: culpa dos psicólogos. Fui de uma geração que levava uns tapas na bunda quando passava das medidas, e não ficou com traumas por isso.

Hoje não se encosta um dedo nos filhos, embora no outro extremo da história se jogam filhos pela janela.

Mas não vou falar disso hoje. Fica para outro dia, porque o assunto é muito mais sério para ser discutido “em passant”.

Adolescentes mal saídos das fraldas frequentam a noite, vão a baladas, onde tudo pode acontecer, as meninas ficam grávidas cada vez mais cedo, e empurram o serviço para cima das mães.

Há uma juventude muito séria, justiça seja feita, e como tenho visto meninos de 13, 14 anos, cabeças feitas. Mas como há pilantrinhas também.

E sabem exigir! Estudar é algo que só é feito em troca de prêmios, como se estivessem sendo submetidos a castigos, e não plantando para o próprio futuro.

O bullying cresce assustadoramente, e eu não iria ser professora atualmente por nada.

Isso tudo só mostra pais despreparados, se borrando de medo de que seus filhos façam alguma bobagem.

Pais que não sabem onde seus filhos estão. Ou de tão apavorados chegam a achar legal colocar chips nos filhos.

Entendo, o mundo está violento, mas está faltando diálogo. Conversas francas.

Um destes dias tive um pai que me procurou para perguntar o que fazer em relação à rebeldia dos filhos.

Tudo uma questão de saber colocar limites. Não pode porque não pode, eu não deixo e ponto final. Filho tem que saber que pais ainda mandam, quando é o contrário que se vê.

Este pai disse que paga a seus filhos para aparar a grama. Correto. Embora o mais correto seria dizer: Fulano vai aparar a grama. Não comem? Não moram? Por que não podem colaborar?

Medo, puro medo dos pais. Não querem traumatizar seus anjinhos. Estão errando feio. O mundo não vai dar a eles o que estes pais estão dando. E vai se criar um monte de preguiçosos, gente que acha que o mundo deve algo a eles.

Para evitar serem desrespeitados publicamente, nem sequer têm mais com seus filhos aquela linguagem de olhar que os filhos antes entendiam e não discutiam.

Os pais é que sabem que tipo de gente estão criando. Gente que não vai parar em emprego, porque não têm a menor noção de que manda quem pode e obedece quem tem juizo.

Pais que vão à escola ( aconteceu estes dias) e agridem professores e diretores, fisicamente, porque seus filhos foram punidos por algo errado.

Para tudo há meios legais. Se a punição foi injusta, que reclamem a quem de direito, mas ir lá espancar os mestres, isso é coisa que se faça? Que exemplo!

No futuro estes anjinhos vão precisar terapia, ou coisa pior. Se houvesse mais limites em casa as cadeias teriam menos gente.

Vejo pais se individando para dar ao filhinho o que não podem. Mas o filhinho quer...

A menina quer roupas novas a cada dia, afinal a tribo dela mudou o uniforme. E a personalidade, não existe? Todos andam em grupos?

Nossa sociedade está decadente, Lasch avisou. Quando vamos dar atenção aos alertas?

DIFERENÇAS E RESPEITO


Agora quero falar sobre as difíceis relações entre pessoas que tem culturas diferentes. Este assunto é um tabu, porque todos são igualmente necessários ao mundo.

Há lugar para todos os seres, a sociedade nem sequer sobreviveria sem que houvesse do que planta ao que consome o produto final. O indivíduo que varre o escritório tem uma importância imensa, embora ganhe pouco, a pessoa que faz o café geralmente não aparece, mas na hora que os funcionários querem um cafezinho, ou quando se pensa em servir um café ao cliente, este café deve estar pronto.

A pessoa que lava o banheiro tem uma função enorme, afinal banheiros limpos dão aos aeroportos e shoppings uma sensação de higiene e limpeza.

Mas infelizmente a comunicação entre estes funcionários e os usuários é praticamente impossível.

Não sei se a palavra seria cultura, ou se o termo função ficaria mais bem empregada ao caso.

É preciso entender que todos tem seu papel social, mas existe naturalmente e é impossível não existir uma dificuldade na comunicação entre estas pessoas.

E em geral o funcionário gola azul, como os americanos os chamam, sente-se inferiorizado frente aos gola branca.

Que seria de uma cidade sem os lixeiros, os coveiros, os varredores de ruas?

Tem até aquela piada dos dois leões que fugiram do zôo, e um deles foi recapturado em horas, e o outro demorou dias a voltar.

O que foi recapturado logo perguntou ao outro? Como pode, você some por 10 dias, e ainda volta gordo?

E ele responde: eu me escondi num escritório. Todos os dias comia um funcionário, e só me pegaram porque comi, sem querer, o rapaz que fazia o café.

Esta piada mostra que a importância dos golas azuis não é tão pequena assim.

Mas deixando para o fim a questão social, vejamos o porquê da dificuldade de comunicação.

Uns foram educados para determinados papéis na sociedade, outros para outros.

Eu sou totalmente intelectual. Besteira mentir e dizer que não sou. Fiz várias faculdades, mestrados, sou ruim com uma vassoura na mão e não sei deixar uma panela brilhando.

Mas dou valor a quem sabe. Só não consigo ter um papo gostoso com essas pessoas. Nós somos de mundos diferentes.

Profissionalmente consigo. Mas como ser humano não. O profissional é diferente do indivíduo. Como gente, como pessoa, prefiro conversar com os meus iguais. Como profissional não vejo diferença entre ninguém.

Aliás, aqui no meu caso há um pouco de inverdade nisso. Como física, jamais poderia conversar com muita gente, não me entenderiam. Como psicanalista chego à conclusão de que a psicanálise como dizia Freud, exige que haja alguma cultura do analisando, ou ele não entenderá as metáforas.

Assim, é com todo mundo. Quem disser que não é está mentindo.

Não adianta eu querer ser amiga de alguém que se distrai costurando, se para me distrair eu preciso de um bom livro que me faça pensar.

Homens também são assim. Menos que as mulheres.

E eu até me pergunto se gostaria de ser diferente. Muito acham que isso é uma questão de esnobismo. A palavra é pesada. Mas se eu entendo de política internacional não consigo levar um papo com quem diz que a culpa da cotação do dólar é alguma coisa que nada tem a ver. O máximo que posso fazer é dizer hm hm...

Não é esnobismo, é mais o que a minha mãe diria: lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé.

Se eu fosse convidada para uma recepção no palácio da rainha da Inglaterra, ficaria totalmente perdida, não é o meu lugar. Também se fosse convidada para um evento bem popular, ficaria encolhida num canto, porque não saberia agir.

Socialmente existem diferenças, que não estão calcadas em dinheiro. Um cara pode ser milionário e gostar de coisas bem populares. Outro pode ser um pobretão e gostar de ler Shakespeare.

Não é o que se ganha, ou o quanto se tem que determina isso. Não somos iguais, esta é a verdade. Não me importaria de morar numa roça, mas levaria para lá centenas de livros, e não participaria das festas do povo, eu sei disso.

Outros, ricos ( e diga-se de passagem que rica eu não sou), adorariam trocar a vida deles por uma vida bem “fuleira”, esquecer as faculdades estudadas, e entrar num grupo de violeiros e se divertiriam.

Então o ponto aqui é: temos de saber quem somos, o que somos, e procurar nos relacionar com nossos pares, seja para amizades, ou principalmente no casamento.

Muitas vezes alguém nos atrai exatamente por serem o que não somos, e sabemos que jamais seremos. Mas por quanto tempo?

Isso tudo tem que ser muito pensado antes de um casamento, antes de uma mudança para um lugar. É o marido certo? É a cidade certa?

Isto tem a ver com psicanálise? Tudo a ver. Se nossos problemas começam na infância, e se na infância definimos quem seremos, pois é isso que acontece, em decorrência do nosso ser e da educação dada por nossos pais, ou quem tenha nos criado, os problemas futuros são todos de fundo analítico.

Queremos dar a nossos filhos uma educação sempre melhor do que a que tivemos e queremos que tenham amigos de bom nível.

Isso, gostando ou não, de muitas forma se relaciona com dinheiro, infelizmente. Pais pobres nem sempre podem dar o melhor a seus filhos, exceto incutir neles a vontade de crescer.

Mas o ambiente pesa bastante. E as histórias de Cinderela são apenas histórias.

Então vamos admitir que somos quem somos, temos nossos referenciais, e não vamos ter traumas por isso. Muito menos passar nossos traumas a nossos filhos. Todos temos nossas funções no mundo. Pelo menos saibamos nos respeitar, se outros são aparentemente “mais “ que nós, e saibamos respeitar aqueles que tem um nível de cultura e/ou dinheiro e gostos não compatíveis com o nosso.

Só assim podemos viver em paz dentro de uma sociedade pluralista.