segunda-feira, 29 de setembro de 2008

POR QUE SE FAZ FOFOCA?


Pode parecer estranho, mas este assunto, longe de ser de somenos relevância, mexe com muito temas dentro da psicanálise.
Por mais que nos julguemos bons, há em cada um de nós sentimentos de inveja, de sadismo, que em última análise vem da competição, necessária à sobrevivência, desde o homem das cavernas.
Ver o outro, o mais apto, mais forte, ser devorado pelo animal selvagem trazia ao homem primitivo a satisfação de que, embora aquele parecesse ser mais que ele, estava sujeito aos mesmos problemas.
Nosso id não é nenhuma figura de bondade, muito pelo contrário.
Ao id interessa apenas a pulsão de vida, seja ela camuflada ou não.
Saber que o outro, o que tem mais beleza que nós, ou mais bens materiais, está sujeito às mesmas intempéries, dá ao id uma satisfação perversa, um bem estar até difícil de ser aceito pela censura do superego.
Num acidente de avião onde apenas 4 morram, o impacto é muito menor que quando morrem 300, e a mídia sabe explorar estes aspectos.
Saber que uma figura da sociedade, que está em uma posição de destaque e fortuna, de repente foi recolhida a um tratamento de drogas e bebidas, faz com que nos nivelemos a ela.Há além da perversão, um prazer, um gozo narcísico, onde cinicamente, por razões do ego, fingimos estar muito sentidos com a situação, quando na verdade estamos dando ao id motivo de júbilo.
O ser humano é bom e mau a um só tempo. Temos em nós o bem e o mal antagonizando-se. Na verdade não é o ator Y ou a milionária X envolvidos em fofoca, que nos interessa, mas o saber que a desgraça ou a situação ridícula atinge aqueles que o mundo conhece mais que nós.
Isto traz os "deuses" mais para perto de nós, e nossa maldade intrínseca satisfaz-se com isso, embora raramente confessemos.
Se a atriz linda divorciou-se, isto significa que não adiantou a beleza dela, ela tem problemas, tal como nós, e assim o superego nos faz dizer: lamentável, mas o ego se compraz e se satisfaz, instigado pelo id.


Algumas vezes nem são pessoas famosas ou ricas, é uma pessoa simples, do povo, mas nossa parte perversa compraz-se em sentir aquele "bem feito", que se analisado, pessoa a pessoa tem alguma razão de ser.
Logicamente, quando mais importante é a pessoa, mais tempo dura a discussão sobre o caso, mais longe vai a fofoca.
Não se perde muito tempo se a mulher pobre da favela botou para fora o marido que tinha uma amante.
Narcisicamente nos sentimos muito acima disso.
Colocamos nossos investimentos libidinais em egos maiores que os nossos, ou que pareçam ser.
É algo patológico? Sim, e não. Sim, porque a compreensão do fenômeno, que é possível depois que alguém se analisa, deixa de ter estas proporções, e dizemos: vamos cuidar de nossas vidas. Não, porque é natural em todas as pessoas.
Então seria o caso de dizer: alguém analisado deixaria de ser normal? Primeiro não existe tal coisa, ninguém é normal, somos todos neuróticos, de vez que formamos nossa psique sobre experiências neuróticas.
Mas o analisado tem sim, uma atitude menos envolvidada com a fofoca. Não por ser superior, como disse, mas por saber que mecanismos o fariam se importar com ela. Uma vez sabendo ela deixa de ter o sabor que teria.

domingo, 28 de setembro de 2008

AMIZADES DOENTIAS



Achei este assunto extremamente apropriado para discussão aqui.


Inicialmente, a palavra "amigo" é dada hoje a gregos e troianos.


Eu não chamo de amigo a muita gente. Chamo de conhecidos, colegas, mas amigos???A palavra se vulgarizou demais. Amigo é que nos quer bem de fato. Amigo é quem sabe a hora de falar e a hora de calar.

Interessante é como no relacionamento virtual todo mundo é amigo. Desculpem-me a grosseria da palavra, mas amigo, uma pinóia!Troca-se meia dúzia de scraps com alguém e já se pede para ser amigo. Mas será amigo mesmo? Capaz de estar ali comigo na hora que eu precisar?


Bom, mas a questão não era essa. Era em relação àqueles "amigos" sugadores, que nos querem como se fossem vampiros. Não nos permitem ter nossa vida particular, se eles não estiverem inseridos no contexto.Amigo que se intromete em minha vida sem ser chamado não é amigo.


Quem tem ciúme da minha vida particular não é amigo.Nós erramos inicialmente por dar muita corda a este tipo de pessoa. Mas errar é do ser humano mesmo. O jeito então é corrigir o erro.


Uma pessoa que age desta forma precisa é de tratamento. O que ela faz é suprir as necessidades do ego doentio dela, sem levar em conta que está prejudicando alguém que até está fazendo muito para ajudá-la.


Eu não tenho muito problema em afastar pessoas. Se alguém está sendo inconveniente, não dou desculpas. Vou direto ao ponto. Isto porque esta pessoa já tem as respostas prontinhas para "não entender" as indiretas.


Ela ( ou ele) pode até não fazer isso de caso pensado, mas se eu alimento esta situação estou sendo conivente, e pior, estou sendo cúmplice em algo totalmente absurdo.


Afasto esta pessoa, pense ela o que quiser pensar, mas digo os porquês. Nunca em minha vida me afastei de alguém sem ter tido muita franqueza. Mas perturbar minha paz? Jamais. Além do mais, é preciso pensar que quem faz isso não é uma pessoa equilibrada. Vou evitar a palavra normal, dado que em psicanálise não existe o conceito de normal.

Então eu chego com a única cara que tenho, e digo sem muito rodeio que a "amizade" não me é conveniente, e considerando que amizade é uma rua de mão dupla, prefiro que ela se afaste.


Daí para a frente é problema dela. Se um dia ela me ajudou em algo, não me esqueço de dizer isso, de agradecer. Mas pagar o resto da vida por um favor que está saindo caro demais, além do que posso pagar, eu não pago.


E se ela sair dizendo horrores a meu respeito, mais um motivo eu vejo para justificar meu afastamento.


Possivelmente ela não vai se tratar ( aqui fala mais alto minha formação), mas acho que o caso seria mesmo ótimo para uma terapia ( dela). Vai procurar outra vítima para sugar.


Não sei sair de uma situação destas "diplomaticamente". Sou muito fundamentada na verdade, em ter uma cara só, uma postura só, e não saberia mesmo achar desculpas para promover um afastamento. Às vezes o sugado tem "sorte" e o vampiro se muda para longe, ou descobre alguém que oferece mais vantagens, e o problema se resolve de per si.


Mas quando isso não acontece, franqueza mesmo. Corta e pronto. Caso não faça isso vai viver o inferno na Terra. E este povo não tem limites.

sábado, 20 de setembro de 2008

DESABAFO

( Em geral só escrevo para quem lê. Mas hoje não consegui segurar. O que está abaixo é o que eu e muita gente, muita mesmo, sente)
Dúvida

Eu fico pensando, como todo psicanalista que pensa e repensa as coisas até não sobrar nada, o quanto este caso mexeu com o nosso emocional.
Não é que não existam outras Isabellas. O país e o mundo estão cheios delas, sofrendo e muito, mas este caso fez brotar um sentimento de Chega e Basta em nós, de uma forma muito forte.
Já nem é mais apenas a questão de fazer justiça, é a honra do povo que foi vilipendiada, jogada na lama.
Que Isa merece justiça, não há um pingo de dúvida, mas sentimos também que extrapolaram todos os limites, nos fizeram de idiotas.
Até o caso triste dos dois meninos esquartejados mexeu menos conosco. Ficamos duros? Não, é que neste caso os culpados confessaram e vão pagar.
No caso da Isa, sentimos que cada palavra idiota que se diz nos atinge, chamam-nos de idiotas nas nossas caras, fazem-nos de palhaços.
Isa morreu, não tem volta, mas a mãe dela está viva, nós estamos vivos, e os culpados ainda se riem de nós.
Creio que por isso temos raiva, e muita. Não estamos apenas querendo justiça, estamos querendo respeito, querendo a volta a uma situação que talvez nunca existiu, mas deveria haver.
Chega deste deboche cínico, do desrespeito às autoridades, da crença que o dinheiro ( e nem é tanto) compra a honra das pessoas dignas.
Penso na responsabilidade do Cembranelli, que vai conduzir isto a um final que nos devolva o direito de dormir em paz.
Penso em quando conseguirei retomar a vida que tinha antes quando havia crime, sim, mas não o sarcasmo, o descaso com os sentimentos de uma população.
Mata-se sim. E paga-se.
Mas honestamente, do fundo da alma, é a primeira vez em minha vida que vejo tanta podridão em volta do corpo inocente de uma menina tão pura, cujo crime foi confiar no pai. Daquela infeliz eu nem falo.
Não são dois psicopatas apenas. Há uma corja de psicopatas mancomunada, e sem freios. Quando isso vai acabar?Chegamos ao ridículo, ao teatro do absurdo.
Seremos os mesmos de antes, algum dia?

domingo, 14 de setembro de 2008

DEPRESSÃO - MAL DA ÉPOCA


Quero falar de depressão e de repente me ocorre que nunca tive uma.

Mas isto não é problema, pois falo de tantas coisas que nunca tive nem pretendo ter... O fato é que não tive nenhuma até hoje e não quero ter.

Há depressões devidas a causas orgânicas. E outras devido a causas psicológicas. Assim, deve-se investigar uma depressão clinicamente, antes de atribuir-lhe causas puramente psicológicas.

Vou deixar de lado estas que têm suas causas físicas, pois não sou médica.

Vou ater-me àquelas que têm sua gênese em problemas, estes problemas que vivemos no nosso cotidiano.

Mas uma não exclue a outra.

Uma depressão que tenha começado no plano mental causa dano no plano físico e vice-versa. Os exames modernos mostram isso.

Vamos deixar aos médicos a medicação com os fármacos e ver o que poderíamos fazer dentro de nossa área.

Há muitos questionamentos aqui. Poderia encher algumas folhas com questões a serem respondidas.

A causa primeira da depressão de gênese não orgânica, é a meu ver, no meu entendimento, gerada por uma infelicidade, por uma frustração que não foi possível controlar.

A perda de alguém, um desemprego, uma desilusão amorosa, não são situações do corpo, mas podem vir a ser.

Antigamente esta palavra era, na gíria, chamada de “fossa”, e era até meio modismo ter a sua fossa de quando em vez. Depois veio a geração saúde, e a fossa foi abandonada.

O fato é que independente de como ela começa, abaixa as imunidades, o que pode ser visto por um simples exame de sangue.

A temperatura do corpo também baixa, de onde se conclui que há uma queda no metabolismo. Isto traz consigo falta de apetite, memória ruim, desinteresse sexual, queda de rendimento na escola e no trabalho, desatenção, e o conjunto todo abre as portas do corpo para infecções oportunistas. E as portas da mente para uma tristeza incomensurável.

Na depressão perde-se o paladar, a visão para o colorido, a libido cai e a pessoa fica muito vulnerável.

Portanto, nada de dizer: é uma depressãozinha besta.

E o pior...a pulsão de vida vai diminuindo e dando lugar à pulsão de morte, daí a quantidade de suicídios causados por depressão.

O que poucos sabem é que existe também a depressão assintomática. Esta é traiçoeira, por não se mostrar. Quando muito é confundida com uma pequena tristeza, uma falta de vontade de fazer tudo, que pode parecer uma crise de preguiça.

Uma forma de saber se alguém está com depressão tem como base a capacidade de rir.

Enquanto alguém tem capacidade de soltar uma boa gargalhada, não há risco.

Cuidado também com os fármacos receitados, pois alguns têm efeito paradoxal, e pioram a deprê em vez de melhorá-la.

Deve ser tratada com médico e terapia, e não é coisinha de somenos importância. Depressão é a forma externa pela qual a vemos, mas ao notarmos alguma coisa, internamente em nossos corpos as células patrulhadoras já deixaram de funcionar, e então pode aparecer todo o tipo de problema físico.

Acho que a depressão não é em si uma doença, mas um estado geral que mostra que muita coisa está errada.

O melhor é não deixar que aconteça.

Difícil, não é? Sim, neste mundo cheio de aborrecimentos, onde a tônica parece ser sempre uma pegadinha por dia, um preço subindo, uma fofoca acontecendo, uma má notícia no jornal, uma briga em família.

Cultivar uma alta auto estima, bom humor, ter boa alimentação, hábitos saudáveis, não se deixar magoar por nada, não engolir sapos, não ceder aos TEM QUE, assumir-se quem é, são os preventivos mais eficientes.

Perdeu o emprego? Bem, de fome você não vai morrer. Nem que tenha que ir para a fila da sopa dos pobres ( exagero). Não pague suas contas e coma.

Morreu alguém? Não deixe que o luto leve você também. Pranteie por um tempo, mas olhe bem quanto tempo.

Caminhe! Exercício físico ajuda. Beba muita água, evite bebidas alcoólicas, evite gente chata.
Olhe sua postura física. Não deixe seus ombros caídos. Tome banho todos os dias. Um dos primeiros sintomas de depressão é a fuga do banho.

Tenha bons hábitos de dormir. Use roupas bonitas, use maquilagem ( mulheres), faça uns passeios agradáveis. Veja bons filmes, que façam rir.

E finalmente, como se diz em um velho provérbio chinês:

“Você não pode evitar que os pássaros da tristeza voem ao redor de sua cabeça, mas pode evitar que façam ninhos em seus cabelos”.

Resistência e Fuga à Análise

O Paciente Profissional

Este é um dos aspectos mais conhecidos de todos os psicanalistas.

Raramente ocorre que um paciente chegue pronto para se abrir e começar o processo de cura. O caso mais geral é começar por uma sociabilização com o analista, por conversas sobre generalidades, banalidades.

Não cabe ao analista forçar o tempo do paciente. Deve deixar que isto ocorra normalmente. É mais que comum que ele diga:

- Sabe que nem sei porque vim aqui? Eu nem tenho problemas.

Em geral eu digo:

- Ótimo!

Ou digo apenas um Hmm Hmm mais lacônico.

E é comum também que ele fale:

- Posso sair?

E a resposta:

- Não tranco a porta.

Na próxima sessão lá está ele, esperando o horário, pensando no que vai acontecer. Nada, a menos que ele queira. Ele não será torturado, não será interrogado. Falará se e quando quiser.

Depois de um bom desperdício de tempo e dinheiro, ele resolve contar a vida dele. Ou falar do clima. Ou até perguntar coisas pessoais, onde eu respondo normalmente, a maioria das vezes.

Se fala da vida dele, sempre diz que é uma vida normal. Como se alguma coisa normal existisse. Para nós, este conceito inexiste. Não há padrão, logo quem é normal?

E aos poucos vai se soltando, diga-se de passagem, até meses... Pode interromper o tratamento, afinal quem o obriga?

Mas se ele de fato quiser, vai voltar, ou vai procurar outro profissional, até que num dado momento explode. Só que este momento da explosão não significa cura. É apenas o início.

Então teria real começo a terapia do sujeito. E aí começaria a doer. Eu sempre disse que dói. Se não doer não foi análise. É quando ele resiste, como se estivesse protegendo um bem precioso que querem lhe tomar.

Esta resistência tem que existir, e é aí que o analista precisa ser cauteloso. É como uma operação de guerra. Como uma cirurgia.

Rompida a resistência achamos os reais problemas, os traumas, tudo o que deu origem ao sofrimento do ser. E nesta fase o paciente pode se tornar agressivo e fugir. E pode ser muito agressivo mesmo.

Alguns passam a vida fugindo. São os pacientes profissionais. Só chegam até aquele ponto. Aí alegam falta de tempo, de dinheiro, de condições de toda ordem. E abandonam mais uma vez.

Ou mentem, descaradamente ao analista. Criam histórias mirabolantes. Culpam a família, o cônjuge. Nunca encontraram o profissional adequado. Criam fatos irreais. Tudo é válido para não admitir seus reais problemas.

Eu os chamo de pacientes profissionais.

Deixar expostos os problemas não é processo indolor. Admitir falhas muito menos. Contar segredos, pior. E estes infelizes vão pela vida carregando pedras pesadas que não largam por nada. Um bom motivo para isso? Existe sim. Freud falava nos benefícios secundários da doença, segundo os quais o paciente se exime de trabalhar, de estudar, de fazer qualquer coisa útil, afinal ele sempre é a vítima.

E o incrível é que estas pessoas sempre acham quem as sustente, quem tenha real compaixão por elas, quem lhes pague tratamento. Mas não querem a cura. Isto mudaria o status quo.

Assim trocam de analista como quem troca de roupa, mal sabendo eles que para quem de fato quer, nem analista seria necessário, mas uma boa dose coragem para viver e um enfrentamento consigo mesmo.


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O ASSUNTO TABU : A MORTE



Ainda esta semana estava vendo pela internet uma matéria publicada em uma destas revistas semanais, na edição online, sobre a Humanização do Morrer.

Ainda que o tema assuste, vamos tentar nos conscientizar da efemeridade da vida.

O Imperador Marco Aurélio, um dos homens mais cultos que governaram Roma disse certa vez com majestosa sabedoria:

"Sempre que você se desentender com alguém, lembre que em pouco tempo você e o outro estarão desaparecidos".

Evite brigar. Evite confrontos. Não alimente rancores. Para que, se daqui a cem anos, parafraseando Marco Aurélio nenhum de nós estará aqui?

O medo que a morte nos traz não é o medo do nada, não é sequer o medo do julgamento pós mortem que a maioria das religiões apregoam, ou do nada que meu ateísmo me diz, mas daquilo que deixamos de fazer, ou que não iremos mais fazer pela pessoa que se foi.

Inconscientemente é também um confronto que fazemos com nossa própria efemeridade. Sabemos que não levaremos nada daqui, e que de nós só restará alguma herança a ser disputada nos tapas e brigas judiciais, e o que fizermos de bom.

Como a grande maioria não deixará muita coisa mesmo, o que sobra de verdade é a lembrança que deixaremos.

E com isso caímos na realidade: Terei eu vivido até hoje egoisticamente, ou tenho feito algo pelo que meu nome seja lembrado um dia?

Para que tanta ganância, tanto ego, se somos tão frágeis perante o universo?

Para que queremos tanto, se para viver precisamos tão pouco?

Mas se a perda de uma pessoa querida nos traz tanta reflexão, qual o porquê da dor da ausência?

Não podemos mais chegar àquela pessoa e dizer: Eu te amo. Não podemos mais tocá-la. Isto dói, sei que dói. Machuca, faz as lágrimas descerem. É como se o mundo se tornasse diferente. Antes a pessoa existia. Hoje não existe mais.

Isso se chama apego. É uma das coisas que devemos evitar. Amor é diferente de apego. Amar é querer o bem, ainda que não tenhamos aquele alguém para nós. Apego é querer ter conosco, e sem prazo definido. De preferência para sempre, mesmo sabendo que o sempre não existe.

No apego não nos importa se o outro sofre. Se já viveu tanto que gostaria de parar a vida. Se religioso, crendo ir para algum lugar de repouso, se ateu, querendo encerrar a experiência da vida.

Famílias há que no apego exagerado não se importam se aquele que está encerrando seu ciclo de vida está cansado, se sofre, se está preso a uma cama, ou vivendo quase artificialmente, às vezes sem o quase, mas ainda existindo.

Não queria que você fosse! Eu queria te ver uma vez mais! E mais outra! E assim não libertamos a pessoa, pensamos que ela é nossa propriedade. Isto é errado.

Quando se trata de uma criança doente, devemos fazer tudo, possível e impossível para salvá-la. Um adulto também. Mas quando é alguém velho, encanecido pelos anos, agradeçamos pelos anos de convívio que nos deu e vamos deixar partir.

E torno a insistir. Não tenham mágoas de ninguém. Amanhã poderá ser você ou ela a partirem da vida e será muito tarde para sanar estas mágoas.

Mas se você não tem mágoas, e está vendo que o outro nada mais tem a fazer aqui, está cansado desta luta, escreveu sua história de vida, então deixemos que parta.

Nosso pavor diante da morte é o medo do absoluto. Se as religiões pudessem garantir que existe outra vida, por que não regojizar-se e dizer: Agora está em um lugar melhor e sou grato por isso?

Porque na verdade duvida-se que exista tal lugar. E também porque nos joga na face o medo da própria morte.

Saudade? Podemos ter, claro. Lembranças doces? Lógico.

A elaboração do luto passa por mil elementos. Até a raiva de não ter estado junto no último momento é motivo para sofrimento. A dor de saber que algo vai ficar definitivamente diferente. Tudo é questionado. Risos são dados em lembranças boas, lágrimas caem em saudades.

E a vida continua. Outros morrem, uns outros nascem. Sejamos gratos aos nossos ancestrais que tornaram possível que estivessemos aqui hoje neste espetáculo que é a vida. Mas deixemos que se vão quando o tempo deles é findo.


Não vou escrever muito hoje. Quem fala muito acaba falando bobagem. Este texto é para todos, mas tem um endereço certo.

Estou escrevendo para alguém que sofre pela primeira vez na vida esta perda. Sempre há uma primeira vez. E é sempre muito doída.

Se eu pudesse iria segurar suas mãos e dizer: Coragem. Você sabe quanto ela a amou. Isso ninguém jamais tirará de você.

Mas estou longe, e sou de tão vã nulidade, que devo ficar calada, respeitar seu silêncio entrecortado de soluços e apenas dizer que se precisar de mim, estou aqui.