quarta-feira, 30 de julho de 2008

SONHOS - INTRODUÇÃO


Interpretação de Sonhos segundo Freud

Na verdade a interpretação do conteúdo onírico ( sonhos) é a chave para a análise. A “ Interpretação dos Sonhos” de Freud, em 1890 é o primeiro tratado científico sobre o assunto.

No sonho freudiano considera-se o material do sonho, a origem dos símbolos, o sonho como meio de satisfação, como forma de linguagem distorcida, além da função do psicanalista na compreensão dos mesmos. O sonho é uma “estrada real” para o inconsciente, no dizer de Freud.

Na fala real usamos conceitos. Na fala real existe tempo e espaço, sim e não e moralidade. É uma linguagem formada no consciente. Já os sonhos originam-se no inconsciente, e a fala é simbólica, imagética e onírica. Não existem os conceitos de sim ou não, a fala é amoral ( não confundir com imoral), atemporal e aespacial.

Um único sonho pode cobrir um vastíssimo espaço de tempo, e um único personagem pode representar vários, assim como personagens diferentes podem representar aspectos diversos da psique do sonhador.

Algumas vezes o inconsciente lança dardos que afloram o consciente, trazendo durante uma conversação lógica, palavras que não fazem sentido, aparentemente, na forma de atos falhos, os “lapsus linguae” ( linguagem usada por Freud).

Por vir do inconsciente, o sonhos nos dá ferramentas para identificar o que existe por lá, e esta ferramenta é a associação livre, feita com o pensamento onírico.

O sonho não se revela ao consciente tal como é produzido, ele se camufla.

Há dois conteúdos: o latente e o manifesto. O latente é o sonho que tem de ser pesquisado na análise, mas que não é o relato do sonhador. O manifesto é como ele é lembrado ao acordarmos.

Como a técnica da psicanálise se constitui de 4 partes: a análise, o confronto, a interpretação e a elaboração, surge aqui na teoria dos sonhos uma questão interessante.

Seria possível analisar um psicótico em relação aos sonhos, pois ele, por não ter a barreira entre inconsciente e consciente me mostraria logo o conteúdo latente.

Mas as outras partes da análise não seriam possíveis.

No sonho há 5 processos:

Condensação ( para reduzir um conteúdo a poucas imagens)

Deslocamento ( para esconder do consciente a realidade)

Simbolismo ( onde o que se sonha não é realmente real, mas mostrado em símbolos)

Dramatização ( aqui se colocam os símbolos formando uma historinha, às vezes sem pé nem cabeça)

Elaboração Secundária ( onde se tenta dar um sentido ao sonho)

Para o psicanalista a elaboração é o mais importante, ainda que o paciente crie elementos adicionados posteriormente. Ele deve partir da elaboração secundária e chegar até a condensação, e descobrir o elemento causador do trauma.

Ele ( Freud) entendia que é possível chegar ao conteúdo latente a partir do conteúdo manifesto. Para ele o sonho é um fenômeno psíquico cuja expressão mais se aproxima do nosso mundo interno. É quando o Ego toca o inconsciente e se defende a partir dos mecanismos de disfarce.

A interpretação é um recurso terapêutico, cujo valor na análise é avaliar e medir a evolução do caso. É importante que o paciente seja informado da marcha de sua cura. É interessante que apesar de camuflado, o sonho não tem a pretensão de agir no encobrimento de sucessos neuróticos.

O sonho pode ser um aviso. O inconsciente pode estar pedindo socorro, e dando ao Ego, ainda que sutilmente, elementos para que o consciente elabore.

É importante que se diga, que se pudessemos ver o conteúdo latente ao invés do conteúdo manifesto, muitas vezes iríamos nos horrorizar.

O sonho é também um produto psíquico individual e é de extrema importância na técnica psicanálítica para trazer à consciência experiências esquecidas.

A emoção guardada ( reprimida) em uma experiência esquecida e trazida à tona através de um sonho oferece através das associações feitas a partir dele, o alargamento das fronteiras do Ego, por ajustamentos psíquicos, conseguidos na transferência.

Durante a análise o Ego assimila o conhecimento do inconsciente.

Sonhos podem também ser traduzidos pictoricamente ( figuras) e a mente incosciente é hábil, como na poesia, na arte do trocadinho, do jogo de palavras, e de metáforas.

Vemos um pouco do mecanismo da Formação dos Sonhos:

Na formação dos sonhos, como vimos há uma série de mecanismos. Vamos falar mais longamente sobre isso:

Condensação: Creio que a palavra fala por si mesma. O sonho abrange com um símbolo ou figura uma grande extensão de tempo, confere qualidade a um indivíduo ou mais de um, ou mesmo, todos os indivíduos podem ser apenas o sonhador. A evocação não se limita apenas ao dia, mas pode evocar fantasias e emoções de qualquer época, aparentemente desconexas do conteúdo central.

A condensação ocorre atendendo o interesse inconsciente de um fato, juntando pensamentos, emoções, figuras, podendo agrupá-las em uma única frase, idéia ou personagem. É um processo essencial no funcionamento mental, tanto inconsciente quanto consciente.

Deslocamento : Faz parte da Camuflagem, o consciente o coloca como censura, transferindo ou deslocando o elemento que deveria estar no plano principal para um segundo plano, de modo a trazer a informação para o conteúdo manifesto, já peneirada por uma censura prévia. Esta censura é ditada pelas normas sociais aprendidas pelo indivíduo, que não quer afrontar a si mesmo e aos outros. Pode ser também uma forma de negação do fato.

Simbolismo : É a “forma” de deformar os pensamentos oníricos ( do sonho) e talvez a mais difícil de interpretar, dado que mesmo para um único sonhador o símbolo pode ter vários significados. Alguns símbolos contudo são universais.

A experiência psicanalítica demonstra que as idéias são simbolizadas , referem-se aos fatores fundamentais de nossa existência real, a saber, nossos próprios corpos, a vida, a morte, a procriação.

O conhecimento de elementos da vida do paciente é de extrema importância para o psicanalista. Ele precisa de dados sobre o paciente para abrir caminho na compreensão do simbolismo. Por isso é arriscado interpretar sonhos de quem não é nosso paciente.

O mecanismo pode diferir grandemente de um para outro indivíduo, embora os símbolos universais possam estar presentes.


Símbolos Universais – Casa ( mente), Água ( vida), Estrada ( caminho), Dirigir um carro ( estar no controle), Chuva fina ( bênçãos), Chuva forte ou temporal ( Riscos).

Símbolos Locais – São aqueles conectados em geral com o país e a época em que a pessoa vive.

Símbolos Pessoais – Aí o psicanalista só consegue interpretar se conhecer bem o paciente. Um objeto para mim pode significar algo que para outra pessoa tem significado totalmente diferente.

Dramatização: E a teatralização do sonho, elaborado pelos mecanismos oníricos, com o material do pensamento latente. Esta fase é interessantíssima, porque a mente produz histórias, com ou sem lógica, e geralmente com um conteúdo cheio de emoção. As emoções são importantes de serem relatadas ao se contar um sonho, elas dizem muito mais do que parecem. É o que chamamos de colorido do sonho.

Desta forma a mente pré-consciente toma os pensamente produzidos pelo inconsciente, os condensa inicialmente para caberem num tempo pequeno ( faz uma síntese), os camufla, para que não cheguem de modo aterrorizante ou não socialmente aceitáveis ( embora hajam sonhos aterrorizantes e socialmente inaceitáveis, sim) e chegam ao consciente na forma de um filme, uma peça teatral, e eu acho isso tão inteligente!!!

Elaboração Secundária : Poderia definí-la com uma dramatização secundária, onde elementos faltantes na dramatização são colocados pelo sonhador de tal modo a que forme uma história coerente.

Todo sonho deve ser interpretado. Ele traz informações do subconsciente, quando os fatos ligam-se ao que acontece no momento, e do inconsciente quando parecem nada ter a ver com a vida atual, ou quando sonhamos com a infância ou com pessoas que já morreram, ou com assuntos que não entendemos bem.

Entender um sonho e discutí-lo é parte da análise.

Embora o paciente queira apenas discutir o que sonhou, é bom entender porque sonhou. Sonhos repetitivos indicam que há uma urgência em resolver aquele problema.

Sonhos que estão sendo interpretados acertadamente tornam a se repetir, mas dando elementos novos. Isto está no outro texto sobre sonhos.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Sonhos



Faz parte de nossa cultura algum conhecimento sobre sonhos. Todos os povos, em todas as épocas, sempre quiseram entender o que se escondia por detrás daquele teatro em nossa mente, que se desenrolava quando dormíamos.

Tenho falado propositalmente sobre Freud, como ponto de início, e como homenagem àquele que foi o primeiro a estudar os sonhos de uma forma não mística, talvez científica, se pudermos dizer assim. Não pretendo abandonar as idéias sobre condensação, deslocamento, etc, como vimos, mas vamos acrescentar outras idéias importantes daqui para a frente.

Mas não apenas Freud entrou neste campo onírico. Todos os grandes psicanalistas o fizeram, assim como muitos filósofos, e não apenas pessoas cultas, embasadas no saber acadêmico.

Na própria Bíblia há relatos de sonhos, e é bem conhecido o episódio do sonho do Faraó do Egito, sobre as 7 vacas gordas e as 7 vacas magras. Neste sonho se vê claramente que uma simbologia foi dada, e que até hoje perdura. É comum dizermos “anos de vacas magras” por exemplo.

Os reis, através da história, tinham seus “magos” que deviam interpretar-lhes os sonhos que tivessem, especialmente às vésperas de uma grande batalha. Era problemático ser um mago, pois se ele acertasse ganhava muitos presentes e ouro, mas se errasse, geralmente era executado em praça pública. ( Profissão perigosa...)

Por todo o mundo, independente de contatos com outras civilizações, povos desenvolveram a arte da interpretação.

Em alguns locais nem era o sonho em estado de sono, mas o delírio causado por aspiração de gases venenosos, ou ingestão de substância tóxicas, e as visões observadas eram interpretadas.

Para outros povos era o sonho mesmo, obtido durante o sono, que era interpretado ou lido ao pé da letra.

Os povos das estepes siberianas, os indígenas da Nova Zelândia, da Polinésia, os esquimós, os índios norte americanos e canadenses, os povos pré colombianos, todos se guiavam por sonhos, que atribuíam a espíritos guias, que apareciam para trazer informações.

Não vou ser radical e dizer que esta forma de interpretação está errada. Principalmente porque atualmente aceitamos, seja por parapsicologia, seja por pensamento esotérico, que pode haver uma comunicação entre mentes, e que o estado de sono se constitui do melhor momento para que a mente absorva informações.

Contudo, não se pode dizer com certeza quando um sonho traz uma informação, de um guia, de um ancestral, ou quando é produto de nossa elaboração inconsciente.

Um cientista não deve ter a mente fechada a nada. Tudo é possível. O impossível é apenas aquilo que ainda não foi provado.

Os índios brasileiros e de algumas tribos sul americanas levam seus sonhos ao chefe religioso da tribo, aqui o nosso pajé, para que ele o interprete.

O que é de fato importante é entendermos que nós fazemos parte do universo, e que não estamos isolados uns dos outros.


Índios canadenses, esquimós e de quase todas as tribos norte americanas acreditam nos espíritos dos antepassados, e os vêem em sonhos como animais. Frequentemente seguem estes sonhos, e em geral não erram.

Há aqui alguma incoerência? Nenhuma. O que existe é apenas uma questão de cultura, de simbologia.

Posso sonhar com meu avô e atribuir ao meu sonho qualidades idênticas ao índio que sonha com uma pantera. E é claro que vamos interpretar de formas diversas, mas chegando a conclusões idênticas.

Os índios brasileiros e de algumas tribos sul americanas levam seus sonhos ao chefe religioso da tribo, aqui o nosso pajé, para que ele o interprete.

O que é de fato importante é entendermos que nós fazemos parte do universo, e que não estamos isolados uns dos outros.

Mas não só neste aspecto o inconsciente coletivo poderia funcionar, como também nos sonhos.

Assim alguém poderia ter um sonho com memórias que jamais fizeram parte de sua existência pessoal. Parece meio absurdo, mas é real.

O mais comum, contudo, é sonhar com fatos relacionados às nossas vidas, e aqui incluo até mesmo as vidas passadas, colocando meu ponto de vista pessoal de que o inconsciente não faz parte do corpo físico, portanto não se justifica que a morte física inclua o desaparecimento do inconsciente. Mas isto é assunto para outro debate.

Numa época mecanicista e cartesiana, acreditava-se que o sonho era simplesmente uma distorção da mente, organizando seus arquivos, e sujeita a alguma percepção do ambiente ao redor.

Desta forma, alguém dormindo de boca aberta, e sentindo a garganta seca, poderia ter um sonho relacionado a uma estadia pelo deserto, onde estaria com muita sede. Acordaria, obviamente com sede, mas não devido ao sonho, e sim a ter respirado pela boca.

Uma janela aberta e uma brisa mais fria poderiam induzir a um sonho onde o frio fosse um componente, e uma historieta aparecia, ligada ao frio.

Da mesma forma trovões, se transformariam em tiroteios, e sonhos de guerras.

Isto também é verdade. Assim, antes de interpretar um sonho, devemos ter certeza de que não foram apenas variáveis reais que induziram-no.

Ouvimos muito, de nossos pais e avós que não devíamos comer coisas pesadas antes de dormir, ou teríamos pesadelos. De fato, durante o sono a digestão lentifica-se e o esforço causado para digerir alimentos pesados pode causar um sono tumultuado, cheio de imagens sem muito sentido.

Mas há sonhos cheio de mensagens interessantes, que por mais que procuremos não têm conotação nem com a situação física do quarto, ou da cama, nem com o que comemos, ou como dormimos, e nada a ver com os fatos do dia.

Esta conotação com os fatos do dia fez alguns estudiosos dizerem que o sonho era apenas uma arrumação de nossos arquivos mentais. Esta hipótese também não deve ser descartada. Um acidente presenciado durante o dia, um ato de violência, pode causar sonhos cheios de imagens relacionadas ao fato, embora distorcidas. Estes sonhos não vem de camadas muito profunda da psique.

Deixando ainda para mais adiante os sonhos premonitórios, que parecem ser um assunto muito interessante, vamos tentar entender agora de forma mais simples os sonhos que se excludem dos sonhos causados pelas causas orgânicas e ambientais.

Já entendemos as etapas pelas quais o sonho passa em sua formação.

Uma pergunta se coloca logo:

- Por que não sonhamos de forma mais clara?

É fácil entender. O sonho latente, aquele que não podemos ver, tem características impossíveis para nós. Uma delas é a total amoralidade. Imaginem se sonhassemos que estamos tendo relações sexuais com uma pessoa com quem não “deveríamos” ?

Possivelmente acordaríamos horrorizados. E será que isso ocorre? Ocorre sim. Na formação de nosso ego, por exemplo, na fase genital infantil, podemos desejar o pai, ou a mãe, dependendo do nosso sexo. E como o sonho não conhece “tempo” não teria problema algum em transportar uma idéia da época que teríamos 5 anos para hoje.

Então uma moça de 25 anos pode sonhar que está tendo relações com o pai. Na verdade, o sonho latente está lá no passado, na fase da formação do ego, na fase genital infantil, e se ela sonha isso agora, não significa que ela hoje deseje o pai.

Outros tópicos do sonho devem ser analisados para que se perceba porque esta imagem surgiu.

No sonho latente, de acordo com Freud, todas as pessoas do sonho são o próprio sonhador. É como se ele estivesse representando vários papéis.

Já Jung não admite o mesmo. Para ele, cada personagem é diferente.

Não quero aqui, nem tenho pretensão alguma de ensinar psicanálise, pois psicanálise nem sequer se ensina. É uma formação que leva anos e segue técnicas, práticas, leituras, análise, supervisão e duvido muito que algum dia possa existir um curso superior de psicanálise.

Também aproveitando a oportunidade deixo claro que o psicanalista apenas ajuda o analisando a se buscar. Se o psicanalista concluir algo, ele estará errado. Quem deve concluir é aquele que está em análise. O psicanalista apenas guia.

Da mesma forma são os sonhos. Não cabe ao psicanalista interpretar sonhos do paciente. Cabe a ele orientar, perguntar, ajudar a montar o quebra cabeças.

Tenho falado em símbolos universais. Por que? Seria uma questão quase estatística, e também ligada à gênese da maioria dos sonhos. Mas admito que muitas vezes o símbolo pode estar modificado para um sonhador. Já os símbolos locais devem-se à cultura do povo, à sua língua, seus hábitos. E finalmente os símbolos pessoais, que só fazem parte da experiência daquele que tem o sonho.

Se um indivíduo sonha com uma bandeira e este indivíduo é um militar, o símbolo tem um significado diverso daquele se o sonhador é um apreciador de uma escola de samba. Tanto o país quanto a escola de samba têm bandeiras. E também deve-se lembrar das gírias. Se alguém diz: Fulano está dando bandeira, isto aparece no sonho como uma bandeira, mas sabemos que o significado nada tem a ver com uma bandeira real.

Assim, há muitos cuidados que devemos ter na interpretação. Admitir a atemporalidade, a amoralidade, a condensação, o deslocamento, entre outros fatores.

A condensação ocorre em uma forma muito parecida com o que ocorre em filmes de cinema. Uma história completa tem que caber em 90 minutos, no filme. No sonho não pode passar de 5.

Isto pode parecer incrível, às vezes só para narrar o sonho levamos duas horas! Vejam que espetáculo é a mente!

O deslocamento pode fazer parte da “camuflagem”, para não se tornar chocante demais, e também pode trazer o sonho para outra situação, na qual ele se adapte.

Embora Jung veja os sonhos de modo diferente, e ainda tenhamos as opiniões de Fromm, Steckel, Ferenczi, e muitíssimos outros, vamos respeitar sempre os sentimentos daquele que sonha.

Isto porque o sonho tem uma função importante também. Ele traz consigo a satisfação de desejos não realizados. Não importa se alguém acha ou disse que todos são o sonhador, ou se outro diz que cada um é diferente no sonho. O importante é o que o sonho representa para nós, na manutenção de nosso equilíbrio psíquico.

Outra função importante dos sonhos é a de nos informar sobre fatos de nossa psique que teimamos em manter muito bem escondidos de nós mesmos. Um fato que ocorreu, e do qual não queremos lembrar, pode ser esquecido propositalmente, como uma tentativa de não nos fazer sofrer. Digamos que um dia alguém nos magoou, e em vez de resolvermos isso, decidimos pelo esquecimento.

É tão comum ouvirmos: Esquece, deixe para lá...

Certo, deixamos, mas o inconsciente deixou? Possivelmente não. E tudo o que não é resolvido começa como um cisco de areia dentro de uma ostra. A ostra reveste o grãozinho de areia, para que este não a machuque, e forma a pérola. Nós não criamos pérolas. Aquela mágoa que ficou lá dentro é revestida, sim, mas vira um trauma, um complexo, e se não resolvida interefere no corpo físico gerando uma doença. As doenças são as nossas “pérolas”. Triste, mas verdadeiro.

Entender o sonho, procurar resolvê-lo, seja indo pelas idéias de Freud, Steckel, ou pelas nossas, é o que precisamos fazer.

Quanto mais intrincado o sonho, mais fundo está o trauma. E mais devemos pesquisar, nem que se leve a vida procurando.

Por sorte nossa, se nos aproximamos da verdade a psique manda outro sonho, como naquele brinquedo infantil, tá quente, tá frio...

E de repente nos vemos face a face com a solução. Daí para a frente é só verificarmos o quanto aquilo que nos marcou um dia ainda é importante hoje. É tão reconfortante quanto tirar uma pedrinha de dentro de um sapato.

Poderíamos dizer: Mas não é possível que algo que foi importante quando eu era criança, venha querer solução agora! Mas é verdade. O que não foi resolvido vai ficar insistindo pela vida a fora. E criando problemas. Criando compulsões, criando psicopatologias, criando doenças reais.

Pessoalmente fico muito triste quando meus pacientes dão pouco valor aos sonhos. Em geral querem falar do problema atual. E não se dão conta de que o problema atual poderia nem se constituir em problema se não houvesse ficado uma areia dentro da ostra.

Uma forma de treinar para lembrar os sonhos é manter um caderno junto à cama e anotar o que puder ao despertar. Mesmo que não faça sentido. Durante o dia alguma outra lembrança poderá ser acrescentada. O inconsciente sempre mandará recadinhos durante o dia se adotarmos este tipo de procedimento.

Fazer desenhos também, de coisas que se viu no sonho é útil. Mesmo que o desenho seja horrível. Ninguém tem que ser artista, mas a figura tem uma força maior na linguagem onírica.

Anotar sensações também é importante, músicas ouvidas, odores, sensações de frio ou calor, medo ou paz.

Embora a psicanálise possa ser conduzida sem análise de sonhos, ela é sempre muito mais completa e objetiva quando os sonhos são analisados.

E esta coisa de dizer: “Eu não sonho”...é uma inverdade. Todos sonham. Se uma pessoa fosse privada de sonhar por algum tempo não longo, ela enloqueceria. O que pode acontecer é não lembrar dos sonhos. Acordar abruptamente, principalmente com rádio relógios irritantes, ou despertadores do tipo “acorda quarteirão” fazem a memória dos sonhos se retrair rapidamente.

Cada um de nós tem um horário durante o sono em que sonha mais. E os sonos diurnos, tipo cochilada depois do almoço, também trazem sonhos interessantes.

Anestesias causam sono sem sonhos, e alguns remédios específicos para dormir também.

Já os ansiolíticos não intereferem com os sonhos, e alguns até os liberam mais, por retirar a tensão.

Pessoas que têm sono muito leve, em geral não entram na fase do sono onde os sonhos acontecem, ou entram rapidamente.

Uma boa qualidade de sono é indispensável para que bons sonhos sejam produzidos, e aí eu discuto a questão do horário de dormir.

Cada um de nós segue um ciclo circadiano, que deveria ser respeitado. Sou absolutamente contrária a que sigamos um horário “porque todo mundo dorme de tantas a tantas horas”.

Isso só vai causar problemas psicossomáticos, dificuldades em liberar tensões pelos sonhos, e não vai dar ao psicanalista material para trabalhar.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

SOCIEDADE EM DESESPERO


Tenho acompanhado de perto, o caso Isabella, em foruns, consultando os TSJ, TSF, participando do forum Terra, lendo comunidades no Orkut, e vejo algo que não sei se vocês estão notando.

É a quantidade de pessoas totalmente sem educação, falando horrores, denegrindo até o corpo em decomposição da criança, como se falassem do resultado de um jogo, ou do último filme assistido.

Isto é muito grave. Muito mais do que possa parecer. Mostra a decadência moral de um povo, ou de uma civilização.

Se uma laranja está podre em um cesto, jogue-a fora, ou todas apodrecerão.

Se pessoas não tem comportamento social adequado, escondendo-se atrás de um capuz de tela, um nome fantasia, e dizem coisas que jamais deveriam ser ditas, e estas pessoas encontram eco em alguns seguidores, algo está podre no reino da Dinamarca.

Pode parecer que pretendo ser aqui a certinha, a que não fala nenhuma bobagem, jamais diz um palavrão, mas não é por aí.

Sei sim, xingar mais do que vocês ousem imaginar, mas a quem de direito e no momento adequado.

Não é pela contestação pura e simples que esta juventude atual chegará a lugar algum.

Há jovens maravilhosos, pessoas a quem abriria minhas portas sem medo, mas isso não é o comum. Infelizmente estamos diante de um choque estranho: eles tem acesso à Internet, e ao mesmo tempo não têm conteúdo nem essência.

O respeito à família e às instituições parece ter terminado, e principalmente o auto respeito.

Ora, quem não se respeita, vai respeitar os demais?

Os que se atribuem nomes fictícios imorais, devem julgar-se merecedores deles.

E meu medo é: amanhã este pessoal poderá estar precisando ajuda. Mas quem os ajudará?

Estamos de fato passando por uma crise incomensurável de valores, de auto estima subterrânea, de insegurança, de medo, e este medo e esta insegurança se refletem na agressividade que passam aos demais.

Querem ser sempre os do contra. Se o certo é um caminho, tomam o outro. Sei que em Psicanálise os conceitos de certo e errado diferem de ser para ser, mas há coisas básicas, respeito à família, à dor do outro, são conceitos fundamentais, e quem não sabe e não consegue seguí-los não conseguirá elaborar os seus próprios.

Então, vejo com pesar uma sociedade em desespero. Vejo seres vazios, que só se comprazem com a gracinha do momento, desprovidos de valores do ego.

Que tipo de ego tem estas pessoas? De que é feito o estofo de suas psiques?

Enfim, o que tem eles de bom?

Nada vezes nada.

E aí eu culpo a Internet sim. Por ser uma ferramenta perigosa acessível a qualquer um.

E não só no caso Nardoni, motivo de meu asco original, mas nas fofocas sem sentido que flutuam na rede, sem proibição, sem punição, sem controle.

Deram armas a pessoas que não sabiam usá-las. E perderam o controle.

Será tarde para reeducar esta imensa massa humana, se é que posso chamá-los humados, portadores de psicopatologias, doentes sociais?

Psicanálise tem vínculos profundos com a Educação.

E estamos no limiar de uma época de imensa loucura cibernética. Gente com medo de “fakes” que ainda por cima postam anônimos no Orkut. Faz sentido tal coisa?

Deveria ser obrigado, para usar a internet algo como um cadastro de nome, identidade, estado civil, cpf, escolaridade e ninguém, absolutamente ninguém poderia escrever uma linha que fosse sem assinar seu verdadeiro nome e se identificar, ou estamos estaremos instituindo a cultura do anonimato, dos trotes telefônicos da década de 50, das famigeradas cartas anônimas.

Causas? Mil. Soluções, ninguém as traz. E enquanto isso institui-se a sociedade em desespero, a cultura do medo.

Pessoas mudam de nome ao sabor do vento. Gente tem medo de pessoas que não existem, pois para mim quem não assume quem é, nada é.

É tempo de mudar. Tempo de se assumir, tempo de dar valor ao que tem valor. Tempo de ter valores. E principalmente tempo de aprender o respeito.
Egos foram mal formados nas últimas décadas. Os pais tiveram pouco a ver com isso, a influência externa foi muito maior. Onde ficam as referências de pai e mãe tão necessárias ao desenvolvimento do ego infantil?

Não ficam....

E a geração que aí está, com raras e honrosas exceções é a geração do deboche, do ego deformado, e depois se queixam, quando se lhes acomete o pânico, as psicossomáticas, todos os tipos de fobias.

Vamos parar de dar celulares a crianças.

Vamos deixar nossas crianças brincarem mais e acessarem menos a rede.

Vamos fazer com que consigam passar por suas fases de formação sem influência tão grande dos meios de comunicação.

Vamos deixar que sejam crianças.

Ou não vejo futuro muito bom para esta humanidade. Posso estar sendo pessimista. Espero honestamente que sim.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

VOCÊ TEM O QUE, MESMO?



Ah, gente....Tem muitas pessoas precisando aprender umas coisinhas.
Muita gente mesmo.

Vou começar de uma aqui...o famoso TEM QUE. Fico pasma com a quantidade de Tem Que que ouvimos em nossas vidas. Tem que estudar. Tem que arrumar emprego, Tem que casar, Tem que ser boa mãe, Tem que ser boa vizinha, Tem que ser prestativa....

Ora tem uns TEM QUE até legais. Ser uma boa esposa é legal, se o cônjuge também for bom, ou rua. Ser boa filha, ser boa aluna, se der. Arrumar um emprego é legal.

Mas tem uns TEM QUE intragáveis.

Por que eu tenho que chegar em casa cansada e meu marido não pode me ajudar se ele teve a tarde de folga?

Por que eu tenho que dar carona para a vizinha e desviar apenas 25 km do meu roteiro, só para ser a boazinha? Sabem que boazinhas ( leia bobinhas) está fora de moda?

Por que eu tenho que ouvir tudo o que a sogra, cunhada, amiga da vizinha, prima do guarda de trânsito, comadre da faxineira, tia da diretora, e por aí vai, dizem?

Será que sou retardada? Chega uma fase da minha vida que eu não tenho que nada. Cumpro minhas tarefas e o resto que se exploda. Amigos, chega um tempo da vida em que não temos que provar nada a ninguém. O que fizemos, está feito, o que não fizemos fica prá próxima vida, se houver.

Eu não tenho que ser gentil se estiver com dor de cabeça. Não tenho que cuidar meus netos para meus filho e nora irem passear. Não tenho que aprender mais um idioma. Não tenho que deixar a casa parecendo que é exposição da Casa Cor.

Não tenho que cozinhar se não estiver com vontade, afinal telesanduiches existem, e todo mundo sabe ou deveria saber fazer omelete, ou sopa de pacote.

Não tenho que tomar banho se não estiver com vontade. Ou posso ficar 3 horas me derretendo no banho, é prerrogativa minha!

Não tenho que ir àquela festa horrorosa, que no ano passado jurei que era a última vez.

Não tenho que mais nada! Tenho que ser feliz! E só. E isto ninguém pensa que é a minha meta, minha obrigação.

Não tenho que estar com as unhas feitas se não quiser. Não tenho que correr para atender o telefone. Liguem de novo. Ou ponho uma secretária eletrônica.

Não tenho que aprender mais nada, a menos que assim o deseje. Posso dormir quanto quiser se for final de semana. Posso até passar o dia na cama.

Não tenho que levantar correndo e fazer café.

Não tenho que fazer a perfeitinha, mesmo que tente jamais serei mesmo!

Não tenho que ser gentil e digitar um texto de 1 Mega para a afilhada da amiga da vizinha que não tem computador.

Ou então meu retrato estará no começo deste texto.

Chega a hora, e não depende de idade. Pode ser aos 20, aos 30, aos 40, ou aos 70. Quero ser EU, e ser do meu jeito.

Não tenho que nada....aliás tenho sim: TENHO QUE SER FELIZ!







domingo, 13 de julho de 2008

Monogamia









Se nos reportarmos à Antropologia, veremos que a monogamia foi instituída como forma de preservação de patrimônio, de bens. Quando o ser humano deixou de viver em cavernas e passou a ter "bens", machados, sementes, ferramentas para plantio, surgiram os grupos monogâmicos. Isto era para garantir que outros não se apropriassem do que o macho tinha conseguido. Muito posteriormente, mas muito tempo depois mesmo, as religiões tiveram altos e baixos nesta área. Nunca irei discutir religião neste blog, pois religião e psicanálise não andam de mãos dadas.O fato é que, se podemos dizer assim, a monogamia é uma instituição humana e social. Mas não é natural. Imagino como vocês vão ficar bravas(os) comigo. Contudo, não vou inventar. Monogamia é coisa natural e casamento é instituição social, e dependendo da cultura um homem pode ter várias mulheres, e em algumas raras culturas, a mulher podia ter vários homens.Vamos nos ater à sociedade ocidental na época atual. Estamos bitolados à idéia de casamento e fidelidade. Sem falar nas razões, e a maioria é religiosa e social ( preservação do patrimônio), o fato é que o ser humano é polígamo por natureza.Conseguimos chegar a um ponto onde achamos normal ( se é que existe o conceito de normal) o casamento ou união estável entre apenas duas pessoas. Entendo que isto funciona apenas parcialmente, ou não haveria tanto divórcio. Vamos pegar exemplos mais concretos. Trai-se muito. Se eu pudesse escrever um livro contando o que já ouvi, ou se os padres confessores pudessem revelar o que escutam, vocês ficariam de boca aberta. E a "traição" não é só dos homens. das mulheres também. Nas relação homossexuais também ocorre traição. Por que?Apenas porque, paixão e amor são coisas diferentes. Totalmente diferentes.Freud explica que enquanto estamos vivos somos dirigidos por duas pulsões ( instintos), a de vida e a de morte. O sexo é a mola mestra
da pulsão de vida. É um dos componentes do instinto de sobrevivência também, assim como a fome, a sede. Quando o indivíduo deixa de sentir o instinto de sobrevivência, a pulsão de vida começa gradualmente a dar lugar à pulsão de morte, e lentamente, ou rapidamente, o indivíduo começa a morrer, deixando seu corpo fenecer.É fato que nossos genes definem a duração de nossas vidas, está no DNA, mas podemos reduzir a vida drasticamente quando deixamos a pulsão de morte tomar conta da vida.Trocando em miúdos: A casa-se com B. No começo pode até haver paixão, mas ela é limitada a um certo tempo. Aí o sentimento que passa a existir é o amor, ou a paixão pode também sair e deixar o nada. Mas digamos que ficou o amor. O amor é feito de uma vasta gama de sentimentos, de proteção, de apoio, de amparo, de amizade, de respeito, de cumplicidade, e por aí vai.Isto pode durar por toda a vida. Por que? É cômodo, é gostoso, é tranquilo. Há os filhos, os bens em comum, os amigos. É uma pequena sociedade dentro da sociedade maior.Mas onde fica a excitação? O instinto de conquista? aquele algo mais que nos diz que estamos vivos? De modo geral é sublimado. Sublimar significa transferir para outro tipo de sentimento. E aí, nas relações os homens de modo geral tem amigos, vão ao futebol, ao clube, as mulheres fazem compras, trabalham também, algumas em até dupla jornada, enveredam pelos caminhos de se "empetecar" todas, ter montes de coisas que muitas vezes nem usam, e se os temperamentos são calmos, vivem a doce vidinha monótona do dia a dia, e a vida segue...Um dia...aparece alguém que mexe com os hormônios, seja de A, seja de B. E como sexo tem muito a ver com paixão, ou vice versa, alguém "trai" alguém. E se o "traído" revida, sente um tremendo sentimento de culpa, aliado à uma sensação de vazio, de perda...Na atualidade fala-se muito em casamento aberto. É aquele no qual A e B estão juntos, mas se aparecer um C ou um D, não se considera isto como problema.Difícil, não é?Mas não devemos levar as traições ao limite de pensar: Ah! Ele não me ama mais!
Mesmo porque nós mulheres também traímos. Eu não considero sequer traição. Imagino o espanto de vocês. Mas podem começar a tirar seus cavalinhos da chuva, porque onde houver um homem e uma mulher, ou duas mulheres, ou dois homens, vivendo sob a égide de uma união estável, raríssimamente deixa de existir a tal "traição", que é uma escapadinha, um temperinho que falta, uma adrenalina que o corpo pede.Minhas idéias? Não!!! Apenas repito o que estudei tanto, o que constatei profissionalmente, e se quiserem, até confesso, o que vivi.É razão para abalar a estrutura? Não deveria ser. Mas a partir do momento em que se faz disto uma tempestade, o outro, o traidor, sente-se desafiado, e aí fará mais e mais. Sei que é difícil aceitar que seu marido foi para a cama com outra. Muito mais em épocas de aids. Só que isto é tão antigo quanto a humanidade. Não tem o menor significado, e quando eles dizem isto não estão mentindo.Lógico, há implicações. Se em vez de uma fuga casual for o início da evolução para outra relação, podem ir se antenando. Assim, desculpem-me, mas não há nenhuma garantia, de espécie alguma, em casamentos. Todos deveriam ser independentes, para estarem garantidos na eventualidade de uma separação.Vou relatar apenas um caso aqui. Há uns anos atrás atendi um casal em crise. Ele tinha dado uma escapada e ela não perdoava. No início tinha sido mesmo uma escapada, nada de maiores proporções. Ele nem sequer sabia direito o nome completo da dita cuja. E o fato gerou uma crise imensa. Envolveram os filhos ( isto é um crime), os parentes, os amigos, os sócios dele, e no fim, ela, não suportando a pressão tentou suicídio. Foi aí que chegaram ao consultório. Ele não a queria mais ( neste ponto) e ela exigia que ele ficasse com ela. Difícil, não é? Ele me disse que tinha sido uma fuga depois de umas cervejas com os amigos, nem sequer conhecia a mulher. E a esposa invocava leis, direitos, e não perdoava mesmo. Neste ponto ele se cansou dela.

Separaram-se. O que ela ganhou? Uma pensão ridícula, auto estima zero, filhos divididos. Caso trivial.Estou fazendo apologia à traição? Não. Estou lembrando que só devemos dar às coisas as dimensões que elas merecem. Há maridos que não traem. Há mulheres também. E há os que fazem isso. Há muita coisa pior que traição. Muita mesmo. Maridos que abusam das mulheres, alcoólatras, maridos que abusam sexualmente de filhas ( e filhos), e vejo a mulher buscando desculpas!!!! isso definitivamente não dá para entender! Mas quando o sujeito faz aquilo que a natureza pede, é o crime maior?O ideal seria o "Casaram-se e foram felizes para sempre". Como isto é raro, peço encarecidamente que pensem muito a respeito. Meçam e pesem as consequências. Saibam sair por cima, numa situação destas, mas não reajam ao primeiro impulso quando há mais pessoas envolvidas ( filhos). Não tenho a receitinha de bolo para isto. Cada caso é um caso. Quando alguém trai é porque não está encontrando em casa a adrenalina de que precisa. Há agentes ativos e passivos. Não podemos condenar apenas um dos dois.

sábado, 12 de julho de 2008

Inveja






Dizem que a inveja é verde. Talvez pelo antigo dito: Ficou verde de inveja.

O que é a inveja senão um sentimento vazio, da falta pelo que não se tem, e outros têm?

Inveja pode ser de coisas materiais, e sentimentos que alguém desperta e que o outro não tem.

Inveja é um sentimento doentio. Não leva a nada. Mas se não for trabalhado por levar a atitudes perigosas, vinganças sem sentido.

Vi uma irmã passar manteiga no trabalho escolar de um irmão, só porque o dele estava bonito e bem feito. Aí já passou de ser inveja, é a vingança do “se eu não posso, ele também não pode”.

Inveja leva ao falso testemunho, a mentira, a satisfação interna e doente de ver alguém “se ferrar”.

O invejoso não tem um ego normal. Ele precisa muita terapia, até descobrir as razões de ser assim, antes que possa ser curado.

Uma mulher invejosa de sua “amiga” ter conseguido um namorado inteligente, bonito, trabalhador, rico, e ela não. Ao invés de tentar conseguir o mesmo, faz o que? Tenta destruir esta relação, porque ela a machuca. A dor é real.

A inveja pode ter surgido na mais tenra infância, se a mãe, que era, na concepção da criança, apenas sua, dá atenção a outro filho. Aí vem Freud dizendo de novo: culpa da mãe, que não notou.

Puxa, Freud, dá uma folga! Mãe não tem meia dúzia de olhos, muitas vezes trabalha fora e costuma dormir também. Elas não sabem de tudo o que acontece no mundo.

Ninguém nasce com defeitos no ego. Ou muito raramente. Mas durantes as fases oral, anal e genital a inveja se instala, incipiente. É o carrinho do irmão que é vermelho e o dele é azul. Foram comprados pelo mesmo preço, na mesma hora, na mesma loja.

Mas um dos garotos preferiria o azul. E o irmão não quer trocar. Parece ridículo, mas isso se entranha, e cria um trauma. Pode até ser que não, e no futuro riam a valer disso, mas pode ser o germe de uma situação esquisita, na qual as nuances são tão variadas que encheria livros dizendo sobre situações de inveja.

O invejoso é feliz? Nunca. Mas trabalha para corrigir isso? Dificilmente. E o mais engraçado é que o invejoso inveja pela própria inveja, não que haja algo a ser invejado.

Vi uma pessoa que tinha bens, posses, que poderia ter o que quisesse invejando a vida simples de outra. E porque não trocava seu modus vivendi?

Porque o invejoso é covarde. Ele quer ter, mas não se arrisca a perder o que já tem. Se nada tem, então nada tem a perder, mas se tem, então quer o que já tem e mais, o que os demais têm.

Voltando ao tema de que inveja pela própria inveja, esta é a sua doença. Seu padecer. Inveja a saúde, a disposição, o temperamento, a alegria. Mas se acha um infeliz por não ser assim. E aí culpa a todos. Nunca assume que ele é o errado, e poderia se corigir. Aliás uma atitude muito comum nas psicopatologias. O outro, sempre o outro. Ele é o culpado de todas as mazelas. E o invejoso é o coitadinho.

Só que ele não sabe como ele pode ser irritante, até evitado por aqueles que estão felizes, em paz com suas vidas.

Cura? Tem. Um trabalho profundo na auto estima, na confiança em si mesmo, e no combate à sua feroz insegurança.

Lindos por fora – Ocos por dentro

Que pena! Estou falando dos narcisistas, estas criaturas “asquerosas”. Devia não me referir a eles assim, afinal sou psicanalista e entendo porque são assim, mas sou antes de mais nada um ser humano, ou creio que seja.

Tive o desprazer de topar com um espécimen destes na última semana. Pobre infeliz, que só mede valores por aquilo que pode ver, e como só pode ver a si mesmo, então ele é o melhor, o mais rico, o mais bonito, o mais culto, o que tem as melhores coisas e o mais desgraçado.

O mundo do narcisista gravita em torno de seu próprio umbigo. O que não é ele, imediatamente não presta.

Mas ao contrário do que se imagina, ele não tem um self. Seu self é formado pelas coisas que possui. Ele não é o ser, mas o carro, a casa, as roupas. Nem importa a ela que não tenha cultura, o importante é que pensem que tenha.

Quem acha que é difícil encontrá-los, muito se engana. Da favela aos salões da sociedade, esta figurinha desprezível está em todas as partes.

Não importa se o cheque especial estourou, claro, desde que ninguém saiba. O importante é que ele tenha coisas, e agrega “coisas” ao seu EU criando cascas que são frágeis e se quebram fácil, mas ele foge de tudo aquilo que possa quebrá-las.

O narcisista não vai dar notícias de como a filha vai, mas do que ela comprou, de sua última viagem.

Excusado dizer que foge da análise, e nem tem mesmo o que ser analisado, não desenvolveu ego, o ego é falso. Ele todo é falso. O modo de nos olhar é falso. E ele sofre muito mais do que podemos imaginar. Sofre por pensar que é o que não é. Quer ser, mas não chega lá.

Cria histórias para si mesmo, inventa, e investe toda sua energia libidinal em outros, sua própria libido, como força criativa não existe.

O pior é que este serzinho infesta o mundo atual e serve de exemplo às novas gerações.

Nosso mundo está ficando narcisista, e precisamos cuidar disso. O norte americano Lasch, no início da década de 70 advertiu o mundo sobre o perigo.

Meu vizinho tem? Vou ter. E criou-se a cultura do TER, sobrepondo-se à cultura do SER. E hoje, vemos nos shoppings as crias destas gerações que nasceram depois, usando as roupas tribais, os acessórios tribais, caminhando a passos largos para o narcisismo global.

Cuidado, gente. Tenho quando posso, quando me é necessário. Não porque todos tem. Ter por ter é doença, e séria, é falta de ego, é o id indo direto ao superego, o superego fazendo o papel do ego.

Precisam ser lindos. A mãe os achava lindos, melhores que todos, e eles assim querem ser.

Jamais sobreviverão sozinhos. Precisam apoiar-se em egos alheios, e porisso são tão pegajosos. Mas em geral seus casamentos duram pouco, e quantas vezes não terminam em tragédias?

São psicóticos, mas é possível criar neles um ego real, às custas de muita análise, embora eles não admitam nunca suas condições desastrosas.

domingo, 6 de julho de 2008

O CAFÉ QUE ELA NÃO TOMOU







Fora despedida do emprego. Tanto melhor, tinha dois empregos e
já começava a não ter tempo para si mesma. Quando chegava em casa eram
altas horas da noite e tinha de decidir entre jantar um prato frio que
estava no forno, ou tomar banho antes de dormir, tal o cansaço. Assim, não
fora tão ruim ser demitida. E ainda por cima havia uma bolada de dinheiro
esperando no banco, o FGTS, mais a multa da rescisão que já recebera,
acrescentada do proporcional de férias, era melhor assim. Seria mais fácil
deste jeito, mais tempo para si mesma, para os meninos, para a casa. E o
marido também trabalhava, afinal ela não era a única responsável pelo
sustento da família. Poderia mandar uma empregada embora, e iria se sentir
mais descansada.
Era janeiro. A cidade estava vazia, com todo mundo na praia,
menos ela. Pensou em fazer turismo em sua própria cidade.
Já notou, pensou ela, quando se mora numa cidade, a gente deixa
de ver um bocado de lugares turísticos, simplesmente porque eles estarão
sempre lá, à disposição?
Ela tinha uma fantasia. Aliás ela tinha várias fantasias, mas
aquela já estava começando a incomodar pela urgência.
Havia um café na cidade, numa das ruas mais movimentadas, que
não era um café simples. Não era uma destas porcarias onde as pessoas
ficam em pé, e tomam um café ruim, numa xícara ainda pingando água, e
mexem o açúcar com colheres vagabundas. Este café era diferente.
Ele parecia alguma coisa saída de um filme francês. A fachada em
vidro, do chão ao teto, deixava ver as paredes internas espelhadas, as
mesas de mármore rosa, com os pés dourados, as cadeiras estofadas em
veludo, o piso negro, parecendo um espelho. Havia uma rosa em cada mesa, e
ela imaginava um som ambiente, ar condicionado.
As pessoas chegavam, sentavam-se para tomar um simples café, que
era servido com classe. Outros pediam um tipo especial, algumas vezes com
uns acompanhamentos que ela bem gostaria de ver o que seriam. Alguns até
tomavam um uísque, e se demoravam observando o mundo dos mortais, lá fora.
Ela pensava em vestir-se muito bela, colocar seu colar de pérolas, e
entrar naquele ambiente de classe, sentar-se em uma das mesas forradas com
toalhas de linho bordadas, e dizer:
— Um café.
Teria um olhar ensaiado, tentando sentir-se uma atriz francesa,
e beberia com calma, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ao invés
de tomar café num copo de massa de tomate, virando da garrafa térmica já
tão desbotada, mas da qual o marido dizia
— Para que trocar, esta aí mantém o café quente. . .
Provavelmente para ele a garrafa térmica velha estava muito bem,
mas o que fazer com seus sonhos?
E naquele dia tinham marcado para que ela fosse receber o
dinheiro no banco.
Nossa Senhora, melhor que a encomenda, pensou.
Com aquele mundo de dinheiro na bolsa, ela iria se sentir tão
elegante e rica, que o café teria o dobro do sabor.
Na hora do almoço ela avisou ao marido que iria ao banco.
Ele prontamente ofereceu-se a acompanhá-la, estava de férias.
Marido não fazia parte da fantasia, mas não iria atrapalhar,
embora ela já imaginasse que ele iria mal vestido, e que não iria querer
demorar lá o mesmo que ela, talvez até achasse mais interessante entrar
num destes lugares que servem chopes e quibes.
Ela pensou em postergar a data. Mas acabou se decidindo por ir.
E não deu outra.
No carro, ela olhou o marido. Calças meio sujas, camisa polo
faltando o botãozinho de cima.
Ele comentou sua elegância. Ela fingiu não ter ouvido.
Entraram no banco. Foi ao balcão e perguntou aonde deveria se
dirigir. Informada, foi andando, com o marido escoltando, a uma mesa no
fundo, onde pediram-lhe que assinasse uns papéis e fosse ao caixa.
Tudo bem até aí.
A moça diz:
— É muito dinheiro, a senhora não quer abrir uma poupança?
E ela:
— Não, obrigada.
A moça insiste:
— Mas é muito dinheiro para andar por aí, quem sabe um doc?
Ela ia abrindo a boca para dizer não, quando o marido se
intromete:
— Não, o banco em que eu tenho conta é em frente, vamos
depositar imediatamente.
Ela murchou. Sentiu-se como uma rosa deve sentir-se num jarro
com água morna, deixando o caule vergar-se.
Olhou à volta, desamparada, e acenou um "sim" para a moça do
caixa.
O marido contou o dinheiro, nota por nota, e enfiou-o no bolso
da calça, era como um pedaço de tijolo.
Saíram do banco, atravessaram a rua e entraram no banco onde ele
tinha conta.
Ele fez o depósito, conferiu o papelzinho, guardou-o e sorriu
satisfeito.
Ela perguntou, ainda com um fiozinho de esperança:
— Temos mais alguma coisa para fazer na cidade?
Ele, crendo ser o melhor marido do mundo, respondeu:
— Eu estava pensando em aproveitar e comprar os uniformes e
material escolar dos meninos, as aulas começam no mês que vem.
E la se foi ela para a loja que vendia uniformes, onde parecia
que todos os pais do mundo tinham ido naquele dia.
Depois de horas, foram para uma grande papelaria, e ao final da
tarde carregavam sacolas pesadíssimas, desconfortáveis. O carro estava a
léguas. Tudo o que ela conseguia pensar era em como teria sido a tarde
naquele café.
Mas isto era coisa do passado, ao que parecia.
Um passado que teria morado no futuro, mas num futuro que foi ao
passado sem passar no presente.
A maquilagem tinha escorrido em seu rosto, o batom tinha
desaparecido, o cabelo estava desalinhado, alguém tinha lhe pisado o
sapato novo, e o marido colocou a pá de cal:
— Vamos para casa, parece que vai chover.
Ela ainda arriscou:
— Eu gostaria de passar num lugar.
E ele:
— Para quê? Vamos levar os meninos ao parque de diversões à
noite, assim todo mundo se diverte.
Ela foi marchando, com três sacolas pesadas, rumo ao carro, e de
fato começou a chover antes que conseguissem chegar lá.
Uma chuva de verão. Passou logo, bem antes de chegarem em casa.
De noite foram ao parque de diversões.
Enquanto os meninos brincavam naqueles brinquedos todos, eles
sentaram numa mesinha, e ele perguntou :
— Quer milho?
Ela sentiu as lagrimas brotando de seus olhos.
Ainda vestia a mesma roupa, só que agora a saia de linho estava
amarrotada, a blusa manchada, o rosto cansado, e balbuciou:
— Quero um café.
Ele fez que não ouviu e veio com os milhos.
Dois anos depois ela armou-se de coragem, fez-se bela de novo de
saiu.
Mas não disse nada a ninguém, chamou um taxi e deu o endereço.
Devia haver um erro. Não conseguia mais achar o local.
Ela ainda insistiu com o motorista para dar umas voltas nos
quarteirões vizinhos.
Mas não pode ver o café.
Desceu no ponto certo onde ele deveria existir, e olhou a
vitrine da casa de óculos onde seria o local.
Um vendedor chegou-se até a porta e perguntou:
— Gostaria de ver algum modelo?
Ela perguntou, ja sentindo-se humilde:
— Aqui, ja não houve um café?
Ele disse:
— É, acho que sim, antes de ter essa óptica.
Agradeceu e entrou na livraria ao lado. Fez a mesma pergunta. O
senhor de mais idade que trabalhava lá informou que sim, por alguns anos
tinha existido um café naquele ponto.
Ela ainda tentou saber se eles teriam mudado de lugar, mas o
homem disse que não, eles simplesmente fecharam, o movimento era muito
fraco.
Claro, pensou, o movimento deveria ter sido cada vez mais fraco,
com os maridos afoitos por comprarem uniformes escolares e sem um pingo de
fantasia.
Deixou os sonhos na calçada e vestiu-se de realidade.
Chamou um taxi e chorou por todo o percurso de volta à casa.
Lá, trocou de roupa, colocou um roupão, sentou-se à cozinha, e
tomou o café da garrafa térmica no copo de massa de tomate.