Gorda, gorda, cheia de varizes, lenço amarrado nos cabelos sebosos.Tal era a pessoa que sentou-se à minha frente, a imagem da derrota.
Pascoalina ( nome fictício) não tinha mais uma personalidade, um “eu”, era a dor completa sem esperança.
Mandada pela assistente social, preenchia uma das vagas do horário destinado àqueles que vinham após uma situação examinada pela vara de família.
Ela tirou um lenço de dentro de um bolso na saia amarrotada e deu uma longa fungada. E foi este o primeiro dia.
Trabalhamos juntas quase um ano. De menina pobre a mãe solteira, a casada com alguém que se achava o máximo da bondade por ter casado com uma “perdida”, cheia de filhos deste alguém, ela ainda era grata por ter onde esticar o corpo cansado ao final do dia. Era grata por ter comida. Mas não sabia que era gente.
Teve quase todas as doenças possíveis. Vivia com dor de cabeça, as varizes faziam as pernas doerem e segundo ela, queimarem igual fogo.
Mas quando Sua Excelência chegava em casa ela tinha que lavar-lhe os pés com água quente e sal, e servir-lhe jantar, ficando à sua volta, caso ele quisesse alguma coisa que não estava na mesa.
Ouvia calada os xingos que ele dava no filho dela, o que não era dele. E que ela sustentava com o pouco dinheiro que fazia vendendo Avon, para uma vendedora oficial, que lhe dava parte das comissões.
Ai dela se o rapazinho comesse a mesma comida dos filhos dele. E o rebenque pendurado atrás da porta não deixava dúvidas quanto a isso.
Tentou se matar duas vezes. Mas o máximo que conseguiu foi ser internada na segunda vez, e encaminhada para tratamento. Tinha acabado de sair do hospital psiquiátrico.
Ficamos, como disse, onze meses trabalhando na reconstrução dela. Foi um quebra cabeças. Mas foi alguma coisa que me deu prazer, me deu alegria. Até que um dia ela sumiu.
Tanto ela tinha feito transferência, como mesmo me controlando, eu fizera a contra transferência. E agora eu chegava a sonhar com ela.
Três anos se passaram. Não sei como ela me encontrou, afinal eu saí do emprego, mudei meu consultório de bairro.
Um dia abri a porta e ela estava lá.
Não a reconheci de imediato. Uma mulher que parecia ter a metade da idade, pernas bem torneadas, bem vestida, um ótimo corte de cabelo.
Mas arrisquei:
-- Pascoalina?
-- Ela veio me abraçar
Eu tinha um horário vago. Não ficou mais vago. Ela me deu um caderno. Comecei a ler enquanto ela ficava sentada á minha frente, e então eu chorei. Cada uma de nossas sessões estava escrita lá, com comentários. Era um diário dela. Tinha desenhos, e falava do que queria fazer.
E então ela me contou como aprendeu a não engolir sapos, a dizer Não, a sentir-se gente, a fazer valer a vontade dela. Fez cirurgia de varizes, acreditou em si mesma. Viu que havia alguma beleza debaixo daquele monte de banha que ela adicionava a si mesma como a proteger-se do mundo.
E tinha vindo para mostrar a nova Pascoalina. Estou falando sobre ela porque a reencontrei ontem, de novo, no Shopping, lugar onde ela nem se atreveria a passar perto. Bonita.Remoçada, comprando coisas para si mesma.
Fez um curso de estética facial, outro de cabelereira, criou coragem e montou em sociedade com as filhas gêmeas um salão. Deu-me um cartão, no dia em que me procurou.
Mas ontem eu tive que chorar mesmo, horas depois,sentada em uma lanchonete do Shopping, pensando nela. Que me importava que vissem? Uma pessoa estava salva, era o que importava. E o cartão, lindo. E comovente. Ela deu ao salão o meu nome.
Não falei muito aqui sobre técnicas, sobre terapia. Contei um caso. Real em tudo, menos no nome dela.
Não se pode voltar ao passado, isso é certo, mas sempre se pode fazer um recomeço.





