
Pode parecer estranho, mas este assunto, longe de ser de somenos relevância, mexe com muito temas dentro da psicanálise.
Por mais que nos julguemos bons, há em cada um de nós sentimentos de inveja, de sadismo, que em última análise vem da competição, necessária à sobrevivência, desde o homem das cavernas.
Ver o outro, o mais apto, mais forte, ser devorado pelo animal selvagem trazia ao homem primitivo a satisfação de que, embora aquele parecesse ser mais que ele, estava sujeito aos mesmos problemas.
Nosso id não é nenhuma figura de bondade, muito pelo contrário.
Ao id interessa apenas a pulsão de vida, seja ela camuflada ou não.
Saber que o outro, o que tem mais beleza que nós, ou mais bens materiais, está sujeito às mesmas intempéries, dá ao id uma satisfação perversa, um bem estar até difícil de ser aceito pela censura do superego.
Num acidente de avião onde apenas 4 morram, o impacto é muito menor que quando morrem 300, e a mídia sabe explorar estes aspectos.
Saber que uma figura da sociedade, que está em uma posição de destaque e fortuna, de repente foi recolhida a um tratamento de drogas e bebidas, faz com que nos nivelemos a ela.Há além da perversão, um prazer, um gozo narcísico, onde cinicamente, por razões do ego, fingimos estar muito sentidos com a situação, quando na verdade estamos dando ao id motivo de júbilo.
O ser humano é bom e mau a um só tempo. Temos em nós o bem e o mal antagonizando-se. Na verdade não é o ator Y ou a milionária X envolvidos em fofoca, que nos interessa, mas o saber que a desgraça ou a situação ridícula atinge aqueles que o mundo conhece mais que nós.
Isto traz os "deuses" mais para perto de nós, e nossa maldade intrínseca satisfaz-se com isso, embora raramente confessemos.
Se a atriz linda divorciou-se, isto significa que não adiantou a beleza dela, ela tem problemas, tal como nós, e assim o superego nos faz dizer: lamentável, mas o ego se compraz e se satisfaz, instigado pelo id.
Algumas vezes nem são pessoas famosas ou ricas, é uma pessoa simples, do povo, mas nossa parte perversa compraz-se em sentir aquele "bem feito", que se analisado, pessoa a pessoa tem alguma razão de ser.
Algumas vezes nem são pessoas famosas ou ricas, é uma pessoa simples, do povo, mas nossa parte perversa compraz-se em sentir aquele "bem feito", que se analisado, pessoa a pessoa tem alguma razão de ser.
Logicamente, quando mais importante é a pessoa, mais tempo dura a discussão sobre o caso, mais longe vai a fofoca.
Não se perde muito tempo se a mulher pobre da favela botou para fora o marido que tinha uma amante.
Narcisicamente nos sentimos muito acima disso.
Colocamos nossos investimentos libidinais em egos maiores que os nossos, ou que pareçam ser.
É algo patológico? Sim, e não. Sim, porque a compreensão do fenômeno, que é possível depois que alguém se analisa, deixa de ter estas proporções, e dizemos: vamos cuidar de nossas vidas. Não, porque é natural em todas as pessoas.
Então seria o caso de dizer: alguém analisado deixaria de ser normal? Primeiro não existe tal coisa, ninguém é normal, somos todos neuróticos, de vez que formamos nossa psique sobre experiências neuróticas.
Mas o analisado tem sim, uma atitude menos envolvidada com a fofoca. Não por ser superior, como disse, mas por saber que mecanismos o fariam se importar com ela. Uma vez sabendo ela deixa de ter o sabor que teria.






