Aqui vamos pensar no perdão, do ponto de vista de quem o pede. Pedir perdão é bem diferente de conceder o perdão, em termos dos sentimentos envolvidos. Se aquele que perdoa se sente magoado, ofendido, já aquele que pede o perdão se sente culpado, e não consegue conviver com algo que ele sabe ter sido o causador.Óbvio é que estou falando de sentimentos genuínos. Não adianta pedir perdão sem sentir esta necessidade. Socialmente é usual, mas não satisfaz o indivíduo. Se ele não se acha culpado de nada, pedir, por que? Mas se pede, por sua absoluta vontade, passa por um processo geralmente doloroso inicialmente, o de admitir para si mesmo que estava errado.
Isso em si já é difícil. Não gostamos de errar. Ninguém gosta. Fere o ego. Mas machuca o ego muito mais saber que uma atitude que tomamos, uma palavra no momento errado, podem ter sido prejudiciais. E isto começa a incomodar. Pode ser esquecido, com o tempo, mas pode não ser. Pode não ser um fato muito grave, mas é uma manchinha em nossa página da vida.
Pedir perdão não é querer de volta o que se teve. Nem se pode esperar que assim o seja. Nada do que foi um dia será de novo igual. Pedir perdão é uma atitude de humildade, quando se admite que houve uma falta cometida. É talvez uma das maiores atitudes de coragem que alguém pode demonstrar.
Pedir perdão não é pedir para que tudo volte e seja esquecido. É apenas dizer: Eu errei. E mais ainda. A outra pessoa pode não perdoar.
Neste jogo a mente vai e vem. E se eu pedir perdão e ele não me perdoar?
E se eu pedir, o que vai resultar daí? Vou me sentir melhor?
Não, não vai. Não adianta ser perdoado por aquele a quem se ofendeu. Isso não basta. É preciso perdoar a si mesmo. E aí é que as coisas se complicam.
Alguém pode ser perdoado mil vezes, mas pode jamais se perdoar. E todas estas coisas, mágoa, culpa, a falta de perdão a si mesmo, causam traumas que hoje ficam apenas na mente, mas amanhã são remetidas ao corpo, são somatizadas.
O perdão dado pelo outro pode não ser o que se espera. Pode ser apenas formal. E a mágoa crescerá. Isto faz com que tantas vezes o pedido seja procrastinado. Falo amanhã. Não, falo no mês que vem. Dá medo. E então se começa uma busca interior de desculpas.
Certo, eu errei, mas foi porque...
Eu cometi uma falta, mas ele começou...
E se busca incessantemente algo que alivie a alma. Mas em geral não se encontra.
Na psicossomática encontramos uma gama enorme de doenças causadas pela culpa.
Pessoalmente, quando analiso, tento sempre fazer com que o sujeito não use esta palavra. A culpa é a causa maior de muitos males. O corpo físico recebe esta energia negativa e a transforma em um problema real, físico.
O perdão do outro é parte do processo. Mas apenas parte. O duro mesmo é se perdoar.
Contudo, isto é necessário. Muito mais do que se imagina. Perdoar-se pode evitar problemas maiores.
Se eu estivesse agora falando com alguém que fosse pedir perdão eu diria: Você já se perdoou? Não peça ao outro antes disso.
Pode ser que o outro nem esteja mais se incomodando com o que você fez. Mas você só saberá se perguntar. Pode ser que o outro diga: Ora, isso nem é mais parte de minha vida. Esteja pronto também a se sentir enjeitado, abandonado, uma coisa, que nem mais conta. Mas você deve fazer. Por seu próprio bem.
E depois, haja o que houver, tente perdoar a si mesmo. Não se engane. Lembre-se de que você pode enganar o mundo inteiro, mas dorme com a sua consciência, e só a ela deve satisfações.
Casos há em que o remorso de ter cometido uma falha é demorado. Podem se passar anos. Como no caso conhecido na Lei em que um homem se entregou à justiça vinte anos depois de um crime, porque não conseguia mais dormir. Não estou chegando a estes extremos. Você pode ter cometido um deslize menor, mas sempre é tempo de chegar e mostrar que agora seu coração quer paz.
Fará bem para seu ego. E se o outro não puder perdoar, pelo menos você fez sua parte.









